Anderson: o corpo, o delírio, o limite

Ganhar parece ser um destino na sociedade do espetáculo. Nem todos  merecem êxitos e milhões. Não faltam possibilidades de exibição. O capitalismo é senhor de muitas artimanhas. Traz do passado sentimentos, reinventa comportamentos, celebra religiosidades, aparentemente, desfeitas. Não se vive sem ídolos, mas os santos estão ocupando espaços. Portanto, a sociedade traça caminhos diversos, pois as culturas se entrelaçam. É necessário que infernos e paraísos convivam e alimentem delírios quase cotidianos.

Anderson não escapou das tramas sociais. Por um tempo, se sentiu invencível. Falava como se definisse destinos. Não percebia que existem limites. A sociedade não se cansa de oferecer oportunidade, porém constrói armadilhas e converte situações. Muitos pensam que as luzes, apenas, esclarecem e ajudam. Elas também cegam. Há histórias que conversam com o inesperado. Nem tudo está pronto, nem o sucesso é permanente e exclusivo.  Quem procura se assemelhar aos deuses sofre contratempos.

As derrotas não se distanciam do dia a dia. As quedas assustam, quebram, anunciam sinais. Anderson perdeu, depois de um reinado de elogios e mitificações. Abalou-se. Ouviu desafetos com ofensas indignas. Não desistiu. Preparou-se para uma resposta e manteve ritmos de supremacia. O esporte possui seus azares, mas ele saboreava a predestinação. Não queria subestimar sua força passada. Quem não sabe que o espelho é o grande parceiro de Narciso e das vaidades mais incomuns?

Não custa seguir adiante. Novo combate, mídia solta, grana embriagando expectativas. Anderson acreditava na recuperação. Seu lugar no altar seria retomado, com homenagens inesquecíveis. Os esquecimentos aliviam o peso e provocam o surgimento de outras medidas. O perdão existe e a culpa se dissolve. Pior é fugir, deixar o espetáculo sem presença de um campeão que, somente, se descuidou, contudo manteve sua arte e seu poder.

O tempo ensina e desnaturaliza. Há mudanças, mesmo que alguns sonhos desejem que a tradição não se transforme. Anderson consolidou sua vontade e mostrou encantamento. O ídolo decepciona, porém tem o seu valor de mercado. A sociedade capitalista explora, concentra, testemunha privilégios. Quem patrocina aprisiona controles. Não é à toa que as desmontagens arquitetam frustrações. O jogo não costuma firmar resultados e evitar dúvidas.

Tudo se armou. O enredo da vingança criou narrativas que a imprensa divulgou com velocidade. As imagens invadiriam os jornais com palavras que agitaram as torcidas e as apostas. As ansiedades não se distanciam e dão fogo ao espetáculo. A intrigante atmosfera de incertezas serve para inquietar e mascarar os vazios. A luta é brutal e agressiva. O corpo padece, mesmo envolvido de agilidades, pacientemente, adquiridas. A dor expõe o vivido.

Anderson caiu nas entranhas do seu malabarismo. Poucos esperavam que o desfecho tivesse a sedução medonha do trágico. A derrota se repetiu de forma constrangedora. Feriu orgulhos, colocou perplexidades nas telas das televisões, deixou melancolias nas madrugadas. Confirmou-se que o norte-americano estava apto a assegurar o brilho do cinturão. Quem adivinha o futuro de Anderson? Os dados foram lançados. O mundo e seus acasos, o mundo e suas ilusões: quem sabe fixar o desenho do amanhã?

 

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