Antonio Cândido: a generosidade tem nome

 

Vivemos no meio de ataques constantes. A aridez contagia, a ironia se expande. O Brasil está doente, não sabe o tamanho da sua aflição. Nunca vi tanta raiva acumulada. Difícil dialogar. Há pessoas que não percebem que há corrupções próximas e familiares, mas preferem jogar para a plateia, pintar imagens histéricas.  Quem soube roubar com sutileza, fica escondido, como se fosse um anjo. O fogo queima e o inferno está por aqui. Fico meio perdido, pois não curto agressividades, nem cinismos. As questões são profundas e estruturais. A metralhadora dispara com fúria avassaladora. A guerra tem muitos nomes, balançam os complexos de cada um.

Antonio Cândido se foi. Não tenho condições de mergulhar na sua obra e fazer um texto para consagrar sua colaboração acadêmica. Minhas leituras sobre ele não permitem grandes voos. Admiro Antonio Cândido pelo que representa como exemplo de generosidade. Esteve sempre  com as lutas coletivas, não se encantou com os elogios, tinha uma inteligência solidária. Numa sociedade, marcada pela inveja e desejo de aparecer como gênio, ele se torna um exemplo incomum. Além de abrir um espaço para renovação intelectual, não se descuidou dos amigos, criticou as injustiças sociais. A sabedoria não se submete às injeções da egolatria.

É fundamental lembrar-se de personagens que não se fixaram nos feitos acadêmicos. Fugir dos espantos da produtividade, ser mestre sem temer os discípulos merece saudações. A sociedade não se abastece apenas de intrigas políticas partidárias. Ela se afunda, porque perdeu valores e se corrompeu com o fascínio do poder. A grana atrai, faz crescer os ódios, cria inimizades, tumultua a justiça, nos coloca numa crise radical. Quem consegue respirar, olhar a possibilidade de sonhar? Há uma epidemia de mentiras e intransigências que impossibilitam o afeto. Ela nutre debates, congela projetos, estica hipocrisias, assusta.

Antonio Cândido não entrou na dança do trivial. Mostrou dissonâncias, estudou sem eleger privilégios, escreveu sobre Guimarães, Drummond entre tantos outros. Cercou-se de apuros literários, conseguiu articular paradigmas. Não me canso de participar de bancas onde ele é citado. Sua metodologia permanece , não se obscurece com as polêmicas. É uma memória cheia de vida, de dialéticas que embriagam. Os intelectuais que afastam as pedras que existem no meio do caminho são raros. Muitos gostam de vibrar com a tecnologia, se disfarçam , mas assumem consultorias para guardar o capital. Fogem das aulas, da formação, tornam-se os senhores das conferências.

Antonio Cândido não baniu o sonho do socialismo. Não mistificou. Existem dificuldades imensas. Pensar um  mundo sem desigualdade nos chama para o desafio. No entanto, as contradições continuam, as traições firmam armadilhas, as desesperanças não se vão. Ele nunca negou os obstáculos. Mas se jogarmos fora o sonho não será pior? O pesadelo não será constante? Essa é uma questão que deveria nos abraçar. Celebro, aqui, a generosidade. A reflexão é importante quando está acompanhada da sensibilidade. Para que eleger conhecimento e  navegar no mar do individualismo? O sofrimento do mundo é visível, a indiferença é uma crueldade. Não sabemos dividir. Queremos a roupa da rei.

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