Ariadne: os tempos, o fio e as histórias

Tudo ganha velocidade. Não é que o tempo mudou de lugar. O relógio está guardado na gaveta, com os ponteiros se movimentando. Não pense nos números, nem busque fórmulas. Observe a quantidade de coisas que acontecem. O tempo se interliga com a interioridade, persegue ansiedades, tumultua sossegos. Muita gente circulando é assunto para conversas sem fim. Não faltam surpresas, expectativas refeitas, passados ignorados. A exatidão é,apenas, uma medida com seus enganos e suas necessidades. Lula falava com desenvoltura, brincava com as palavras, não temia multidões. Hoje, encontra limites, a doença tirou sua força solta, o fez ouvir e aceitar restrições. Os jornais anunciam a fragilidade de quem, antes, não tinha timidez.

O tempo é a composição de diversidades. Não se resume a formas e cores já conhecidas. Ele se inventa, mesmo que procure retomar tradições ou traga as ilusões para o centro da vida. É preciso não se bastar com o momento, nem apostar na sua reprodução. A tristeza dura dias, anos, porém não há eternidade para os sentimentos. Há rupturas, aventuras inesperadas e desacertos. O tempo se desenha com linhas simétricas. Suas geometrias podem ultrapassar abismos ou mergulhar em oceanos nunca vistos.Há, sempre, espaço, para redefinição do mundo, mesmo que as utopias se remendem.

Quando escrevemos ou verbalizamos as sínteses das histórias estamos desejos de fixar sentidos. É uma busca, nunca um ponto final. O entrelaçamento dos acontecimentos não permite uma sonoridade sem ruídos. A Sagração da Primavera de Stravinsky pode ser  lembrada.Dialoga com as dissonâncias da contemporaneidade. As reações são complexas, pois os sons do mundo não são mínimos, viajam pelas multiplicidades das culturas, não fogem das heterogeneidades. Os sentidos aparecem, porém, se configuram efêmeros, sobretudo com a montagem permanente de tecnologias e pressas na acumulação da riqueza.

As linguagens ajudam na decifração da vida. Transformam-se e sinalizam-se alfabetizações rápidas. É impossível ler o mundo com  todos os detalhes, fechar as portas do conhecimento. Há lacunas desde os primórdios. A quantidade não significa o fim das questões, mas as estende, exige outras cartografias, conecta reflexões de Aristóteles com as de Foucault, de forma sutil. O tempo mantém a memória atenta. As linguagens possuem confrontos. Lembremos, contudo, Mia Couto: Poesia e ciência são entidades que não se podem  confundir, mas podem e devem deitar-se na mesma cama. E o quando o fizerem espero bem que dispam as velhas camisas de dormir.

As histórias e seus tempos são criações de um imaginário fértil, com armadilhas que se renovam. A escrita e a palavra, o deslocamento e a desconfiança, a inquietude e sossego trazem especulações contínuas. Por isso, não dá para negar os paradoxos, nem imobilizar os sonhos. Pensar que a uniformidades nos salva é legitimar a preguiça mental e ressuscitar a lógica da identidade. As histórias controem arquiteturas próximas de labirintos escuros e cheio de curvas. No entanto, o fio de Ariadne é a metáfora que se cola no tempo e evita que o desespero nos assombre com pesadelos, mesmo que o fio não atravesse todos os caminhos.

You can follow any responses to this entry through the RSS 2.0 feed. You can leave a response, or trackback from your own site.

Deixe uma resposta

XHTML: You can use these tags: <a href="" title=""> <abbr title=""> <acronym title=""> <b> <blockquote cite=""> <cite> <code> <del datetime=""> <em> <i> <q cite=""> <s> <strike> <strong>