As inquietudes da história

O tempo passa sempre arrastando sonhos, perdas, desprezos, ironias, lembranças… O futuro não possui uma medida exata, parece ter parceria com o acaso ou mesmo anunciar que o juízo final talvez esteja próximo. Sente-se uma diversidade de atmosferas que metem medo em alguns e traz suspiros de liberdade para outros. É um engano querer enquadrar a história num calendário restrito, repleto de celebrações e datas medíocres. As surpresas visitam o tempo, entrelaçam fantasias, explodem delírios, inquietam os silenciosos, estimulam travessias.

A possibilidade de multiplicar ansiedades não se extinguiu. Sobram indignações, ataques morais, risos soltos, corridas para abraçar os amigos. Há,portanto, incertezas e instabilidades. No Brasil, a história já andou por muitos territórios. Lembrem-se da escravidão, dos tormentos das grandes secas, dos discursos de Vargas, das manobras das ditaduras militares, dos cinismos dos políticos, dos encantos da bossa nova, dos poemas de Manoel de Barros. Não faltam movimentos, nem projeções. Lula se elegeu, houve polêmicas, tensões se acirraram, Jair ficou na cena, o Supremo trouxe a poeira das andanças jurídicas e a polarização se firma. É inevitável? Seguem os enigmas? Quem não se aproximou das falas de Prometeu?

As mudanças se mostram, animando quem deseja que a sociedade busque outros valores. No entanto, a luta não cessa, pois as diferenças não se foram. Os fanatismos ganham as ruas, as redes sociais desequilibram as ordens antigas ou fermentam a guerra digital. Persistem desconfianças. Falta uma coletividade que atice a autonomia, que não se aprisione pelo culto aos ressentimentos e siga transformações que expulsem desgovernos, corrupções, covardias simuladas É possível dialogar? Quem se assombra, quem festeja? A política ferve. Nem todos observam as armadilhas. Portanto, as vacilações serão frequentes e as intrigas tomam conta das conversas. Não há mudez. As turbulências possuem suas sabedorias. Os erros estão nos escritos das incompletudes, porém não podemos desprezá-los. Ver no Supremo ídolos é exagerar. Ele não se solta das ambiguidades.Há escolhas, mas o diálogo e o simbólico desenham significados, movem tolerâncias e puxam as pessoas para o meio de história.A travessia foi intensa. A interpretação das leis assustava e assinalava complexidades no jogo político. Que fazer para desmontar tantas confusões?

Lula, que conviveu com momentos antes inesperados, deve saber que o passado pesa e não custa decifrá-lo. Recebeu solidariedades, revelou suas expectativas, contemplou paisagens nada belas, refez planos, notou vazios e messianismos perigosos. Houve tempestades, escorregões, atritos violentos. Tudo inseguro e, também, com dose do melancólico. Mas era fundamental analisar as manipulações, não submergir diante de tantos negócios obscuros, escutar certos silêncios. A história se reapresenta. Promete-se uma desconstrução. Calar não resolve. É preciso respirar, repensar, configurar a autonomia. Os ruídos não devem fechar as portas das reinvenções. Nem sempre, a história ensina e o cuidado é o caminho para evitar agressões aos direitos de imaginar e empurrar o cinismo para o abismo.As fronteiras se consolidam, porém há sempre uma brecha para que a história se amplie ou se amesquinhe. Nós e os outros a construímos.

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1 Comment »

 
  • Vânia de Moura Campos disse:

    Antes, sempre acreditei que argumentação fosse o caminho para entendimento agora, respaldada por diversos exemplo que presenciei, um texto está sujeito a ter “uma leitura” própria que destorça a mensagem que se pretende passar, a própria história muitas vezes está sujeita a releitura que inverte versões consagradas por décadas e nesse impasse uma coisa sabida é que muitas mentiras passaram desapercebidas por muitos, durante muito tempo, e para alguns, por uma vida. Em termos de fé se é para ter fé que seja em Deus não em homens… Sendo esse político então.

 

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