As águas mudam de ritmo e causam tensões

A música de Tom Jobim, Águas de março, merece ser ouvida infinitas vezes. Uma letra renovadora, animando os ritmos e trazendo a natureza para ser cantada. Consegue construir entrelaçamentos surpreendentes e mostra seu cuidado com o equilíbrio do mundo. Sua interpretação, junto com Elis Regina, toca o coração, atiça sentimenos e relembra os tempos da infância. Tom, um maestro especial, cidadão do mundo,  fez outras composições admiráveis e ajudou a redesenhar muita coisa.

Os tempos mudam. Hoje, vivemos dramas movidos por outras águas. Não cabe beleza. Os sossegos são esquecidos, os feitiços adormecidos. Estamos, em janeiro. Muito calor, praias, corpo bronzeados e vontade de respirar. Há chuvas que quebram a soltura do verão. Nada a reclamar. A natureza possui suas lamentações e precisa expressá-las. É saudável e limpa a atmosfera. No entanto, o desequilíbrio ecológico tem causado pânico. No Sudeste, as notícis ganham uma sequência interminável. O romantismo não se desenha diante de tantas perdas.

O assunto é retomado, porque a história não é mesmo mestra da vida. A política caminha, sempre, pela luta por cargos. São poucos os lampejos de solidariedade. Esquecem que a vida se constrói na dimensão do coletivo. Quando os desacertos se acumulam, aparecem soluções. Projetos mirabolantes, verbas emerciais e milhares de pessoas desabrigadas. Muitas cidades se transformam em ruínas e rios, em oceanos. Qualquer pingo de chuva é um alerta. Ruas alagadas, pânicos estendidos.

O desnvolvimento técnico tem seus méritos indiscutíveis. Atrai, também, um fogo pelo consumo e enche nossas casas de produtos. Criam-se mecessidades, antes nunca pensada. Concentram-se riquezas e objetos. O desejo comanda as idas em busca de novidades. Um romance interminável ou uma tragédia anunciada? Em vez de uma televisão, várias em cada canto da casas. Carros individualizados, com dispoisção para qualquer viagem: longa ou curtíssima. O urgente é desprezado ou deixado para depois. O que vale é aparecer, torna-se também um produto especial.

O desmantelo é grande. A natureza reage. Nas cidades, o barulho e a pressa gerenciam a ansiedade. No caso da chuvas, a coisa fica descontrolada, quando não há meio de dimunuir seus efeitos. Muitas vezes, medidas públicas simples, cotidianas, são adiadas e o desastre se alarga. Pior para aqueles que sofrem com o problema, quase todo ano. Não podem fixar bases familiares e se sentem ameaçados pelas instabilidades. Emoção para doer e tirar a crença em qualquer discurso ou oração.

O mundo liga-se no presentismo, palavra não muito simpática. O agora reina nas propagandas e tumultua paciências. Não se considera a urgência de garantir a qualidade de vida, mas de correr para se desfrutar da última liquidação da Insinuante. A medida é a quantidade e o olhar invejoso do vizinho. Nem todos embarcam nesse desperdício. Existem os que entendem a força da ilusão e se envolvem com outras contemplações. A maioria se embriaga com a superfície, delicia-se  com a rapidez e intrega-se nas batidas das prestações. Protestam quando são prejudicadas. O mundo é , contudo,vasto. O sentimento não deve ter a cor das vitrines, o perfume de Narciso.

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4 Comments »

 
  • Telma Lúcia disse:

    Bom dia Prof. Antonio Paulo Rezende.

    Tenho acompanhado seus Artigos com frequencia, admiro esse jeito de escrever com carinho, o modo saudosista e até romântico seja qual for o conteúdo abordado e isso toca nossa alma, desperta sentimentos, e nesse vai e vem como as ondas no mar seguimos no coeano da vida.
    “Agrado-te, meus discursos te são atraentes, desejas seguir-me e ao trilho de meus passos?
    Segue fielmente a ti mesmo e assim me seguirás… suavimente, muito suavimente”. Nietzsche.

  • Telma

    É importante escrever com a porta aberta para o mundo. Sem afeto ficamos muito desamparados, sem fazer um diálogo com a vida e com o querer-bem que dá força, diante dos desconcertos. Grato pela leitura.
    abraço
    antonio paulo

  • allyson renan disse:

    É angustiante o quanto a vida humana perde importãncia enquanto todos deitamos confortavelmente e assistimos ao big brother.o desastre das enchentes também transformou-se num realyt show que leva para o paredão tanta gente humilde, tantos sonhos frustrados.parabéns pelo site,que nos traz tantas leituras interessantes e nos leva à reflexão.

  • Allyson

    Cada um faz sua leitura de mundo e se lança. Nem todos caminham na solidariedade. As diferenças fazem a vida e cortam afetos, mas promovem criatividades. É difícil, pois a ambiguidade mora no mundo. Daí, as muitas dissidências.
    abs
    antonio paulo

 

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