As ambiguidades formam a história

Quem se abandonou aos cantos do progresso sentiu que a história se constrói e não está pronta no armário de algum quarto decrépito. Há surpresas para quem se nutre das linearidades e congela a memória. Lembrar e esquecer dialogam. As narrativas possuem a marca das aventuras de quem as escreve. Portanto, não se assuste se, no seu cotidiano, apareçam amarguras de tempos considerados mortos. Tudo se entrelaça. Não há um sentido que anuncia mudanças coletivas desenhadas pela solidariedade. Dependemos dos outros, mas não dispensamos inveja , nem arrogâncias.Existem lógicas que fazem os sistemas funcionarem e garantem especificidades nas relações de poder. Recorde-se que Freud dissertou sobre a compulsão à repetição e não desprezou as fantasias.

A história passa por estradas cheias de abismo, ilude quem aposta na lucidez impoluta da razão e sacode preconceitos adormecidos. Não há como afirmar a nudez absoluta do acontecimento. Mergulhamos em interpretações, somos inventores de hermenêuticas. O mundo que o iluminismo projetou se desfaz. Restam algumas profecias que, talvez, Voltaire apagasse. Há teorias ousadas que se enfraquecem com os assaltos da violência.Mata-se, arrumam-se genocídios e se engessam rebeldias. Há minorias privilegiadas amantes da reprodução de medos e massacra quem desconfia das suas manipulações.

A história não foge das ambiguidades. Os românticos enalteceram a beleza, arquitetaram encantamentos, mas a exploração do trabalho assalariado multiplicava a desigualdade e enchia as urbes de mendigos e de epidemias. Alguma coisa se transformou? As ciências consolidaram conquistas, no entanto, nunca buscaram se conectar com imparcialidades. Os conhecimentos abrem espaços, criam polêmicas, invadem os perigos das obscuridades. Isso é tudo? Por que existe a energia atômica? Por que a miséria não se foi? Por que os totalitarismos tecnológicos? Quem polui a natureza e oprime com seus planejamentos ditos racionalistas?

Os tropeços prosseguem significando que o futuro não é uma certeza de redenção.Quando terminará a história, não sei. Talvez ela se converta no reino da eternidade ou nela habite os mistérios do infinito. O importante é não apodrecer. Saber que há ruínas, que os circos não desistiram de suas acrobacias,mesmo que as lonas estejam todas furadas. Não faltam ordens armadas, preparos autoritários para assegurar disciplinas e riquezas concentradas. Narciso não se afogou. Apenas vestiu outras roupas e convive com encenações nada utópicas. A ambiguidade mora nas primeiras astúcias do pecado original. As religiões prometem massificar as salvações e exaltar redenções monetárias.

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