As andanças do mundo e os bordados da história

Traçar uma trajetória para cada dia é quase impossível. Simulamos agendas, sabemos das tarefas do emprego, das mesmices sociais, mas o mundo anda com uma independência que surpreende. Não é que tudo seja um mistério. Não exageremos. Focando as emoções que nos tomam, observando que os relógios, apenas, apontam organizações imediatas, ficamos na contemplação da história, querendo bordá-la com cores que conhecemos, porém nosso poder de alcance é sempre limitado. Resta conviver, sem deixar de escutar as inquietudes e compreender que a extensão da vida pede ousadia. As regras e as metodologias ajudam, dão medidas, trazem menos incertezas.

O historiador lança-se na pesquisa. Tem sua relação com os relatos do passado, mas está vivendo as arrumações do presente. É difícil construir viagens no tempo. Somos parecidos, não tenho dúvidas. Vejo as aventuras do início da modernidade, consigo compreender alguma coisa. O diálogo existe, mesmo com imprecisões. Sei que o capitalismo consolidou um mundo coisificado, repleto de mercadorias. Vale a competição. A solidariedade é dispersa. A quantidade se junta com a acumulação, expande-se numa velocidade instantânea. Não é lamentação, porém a força do valor do troca mina a intimidade. Até na saúde sobrevivem os interesses e não a vida, com qualidade e afeto.

Todos têm poder de interferência. Nunca é absoluto. A política acompanha o ritmo do lucro. As palavras e os conceitos relembram outras práticas. Fala-se muito na ética. O que ela significa no mundo atual? Percebe-se uma fragmentação que dilui a totalidade em cacos. Não deixo de contemplar a proximidade, apesar das diferenças e das artimanhas do poder. Se afundamos nas diferenças, justificando o fim do social, a história se esfarrapa. As necessidades se multiplicaram, não vamos querer negar a tecnologia e as reviravoltas na ciência. No entanto, o bordado maior é visualizar o que permanece, sem exaltar tradições, nem conservar preconceitos.

O ofício do historiador não está isolado, contando tempos ou reunindo documentos. A experiência é importante, a sensibilidade mostra outros significados. Dedicar-se a transpor relatos, sem a contribuição da crítica é de uma inutilidade incrível. Desde os primórdios que se registra o cuidado em não esquecer certos comportamentos, não desprezar ensinamentos. Esse apego à novidade é superficial e também contamina quem pesquisa o passado. Essa ansiedade em nomear o campo de estudo, buscando conflitos para justificar méritos, pode ser exitosa na academia. E a vida cotidiana não alimenta a história, não atiça o desejo?

O mando anda, nós andamos. Não estamos sós. Nada se faz sem a permuta, a troca, a comunicação. Nem sempre, nos ligamos na sociabilidade. Daí, os muitos descontroles que existem e tumultuam os projetos coletivos. Há um sentimento maior diante do trágico, quando há impasses que, individualmente, não resolvemos. Isso é marca do nosso tempo ou o humano possui identidades fixas? Pergunta incômoda que desafia quem lida com a história. Prefiro apostar no deslocamento, na possibilidade de mudar. Não anulo as incompletudes, mas as vejo articuladas com a criatividade. Se não houvesse saídas, os caminhos obstruídos impediriam a fantasia do sonho.

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2 Comments »

 
  • Anderson C. M. Rodrigues disse:

    Excelente texto amigo Antonio Paulo! A modernidade nos deu esta falsa sensação de um grande controle sobre todas as coisas, embora os inesperados das nossas micro histórias nos mostram como somos frágeis a tudo. Ter consciência da nossa fragilidade também nos faz entender que a História ela é em muito os anseios do presente e, por isso, o passado continua em movimento assim como o cotidiano dos nossos dias.

  • Anderson

    Mesmo que façamos conquistas e a cultura ganhe tecnologias, não podemos negar as fragilidades e os sentimentos que cercam cada vida. O perigo do individualismo é desfazer o coletivo. Não podemos esquecer as relatividades.
    abs
    antonio paulo

 

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