As andanças silenciosas do capitalismo

             

Ninguém nega a globalização. É assunto presente, em todas as notícias que mostram como o mundo está interligado. As novidades chegam rapidamente. O que assusta é a falta de fôlego, para saber das coisas e buscar ultrapassar certas manipulações. Nem tudo é uma mal permanente. No entanto, a globalização responde às urgências do capitalismo. Ela não cessou de inventar modos de acumulação. As culturas se aproximam, os discursos se internacionalizam, os debates ganham lugares importantes, entre os mais críticos.

Nada escapa às transformações. Não só as relações diretas, com os lucros, merecem atenção. O capitalismo estende seus poderes na formação  dos imaginários. Seduz com sua lógica. Consolida o espetáculo, vendendo diversão, onde o interesse maior é concentrar riqueza. Há forte extensão de manobras políticas, não apenas nos parlamentos e partidos. No mundo dos esportes e das artes, as contaminações são muitas.

Barcelona é uma cidade fascinante. Sua história conta rebeldias e desejos de manter singularidade. Seus espelhos  invadem outros territórios. Atraem. É  lembrada constantemente. Seu principal time de futebol é um exemplo. Forma jogadores, ganha títulos e procura assegurar a habilidade e a inteligência de seus atletas. O clube não tinha patrocinadores. Era um exemplo, um deleite, ver sua camisa desfilando, sem mensagens de propaganda.

Mas há saídas, nem sempre exaltadas nas negociações mais subterrâneas. O Barcelona encontrou um caminho. Não se encheu de empresários querendo suas taxas, porém fez um acordo milionário que não custa comentar. Não brilha mais solitário o nome da Unicef, na sua lendária camisa. Lucrará 170 milhões de euros até 2016. Trouxe um patrocinador: a Qatar Foundation. Uma quantia para conto de fadas e fazer inveja a muita gente. Parece uma fantasia de carnaval imaginada numa noite de folia desregrada.

Vamos aos detalhes. Não se trata do Flamengo, nem do Santos. É outra travessia, com todo respeitos aos queridos clubes brasileiros. O Barcelona possui prestígio e qualidades avassaladoras. Três, dos seus jogadores, concorrem ao título de melhor do mundo. Mantém regularidade. A Nike ficará encarregada de fabricar o material, garantindo sua força no território dos esportes . Um celebração, quando sabemos da crise que vive a economia européia. Não esqueçam que a Qatar Foundation não é uma marca comercial.Está envolvida com educação e pesquisa científica.

 A velocidade das soluções gera surpresas. Tudo é feito com muita agilidade e num silêncio astucioso. É claro que não faltam ambiguidades. É inútil lamentar, sentir saudades. Para frente é que se anda, dizem os negociadores. O capitalismo é hegemônico, porque desenvolve suas artimanhas e se naturaliza. A superficialidade é o ornamento. O método é criação, estratégia de sobrevivência vitoriosa na competição pela grana. Não há direitos definitivos, nem deveres garantidos.

 O jogo permanece, sem cerimônias.Engana-se quem especula um destino, mas não é demais avisar que muita coisa está se quebrando.  A história não é uma fiçcão, com um único enredo. Sua complexidade instiga, puxa para futuro,  conserva o passado com a máscara do novo. Por isso, se passeia pela lógica mais objetiva, sem se deliciar com os voos dos tapetes mágicos.

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2 Comments »

 
  • Da Mata disse:

    Caro Rezende,

    Em minha humilde opiniao nao vejo a venda do espaco nas camisas de futebol como um problema per si. Creio que no caso do Barcelona, especificamente, tal quantia poderia ser utilizada como um reforco aos grandes investimentos nas categorias de base do clube catalao. O proprio Messi, oriundo de familia argentina menos abastada, foi um dos beneficiados pela politica do Barcelona FC.

    Logico que fazer propaganda do UNICEF e ainda contribuir pecuniariamente com o orgao seria muito melhor. Mas ainda assim nao vejo com uma coisa negativa. Tudo depende de como serao utilizados esses 170 milhoes de euros.

    grande abraco!

  • Caro Da Mata

    É realmente uma forma de sobreviver e existir nas competições. O que quero ressaltar é como o esporte vai se contaminando com as estratégias do capitalismo. É difícil evitar, pois a dominação é grande. Mas é bom ter os olhos abertos, pois a coisificação é grande e tudo é sutil. Grato pela leitura.
    grande abraço
    antonio paulo

 

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