As angústias dos ídolos perdidos na América

Fez-se a renovação. Um novo técnico, com fala mansa e apoio de Ricardo Teixeira, assumiu. Os resultados não chegam. A Copa  América tem sido um desastre. Pouco futebol, esperanças jogadas no lixo. Os craques não conseguem o sucesso tão projetado. Há lampejos de bons lances, derrota salva por segundos, mas as falhas prevalecem. Dunga havia entregue o boné, depois de tantas reclamações. Aguardo e torço para que não apareçam os saudosos. Há quem se ligue ao passado de forma neurótica. Quem poderia redimi-lo? Freud ou Lacan? Os desacertos existem, porém não se justifica a truculência anterior. É preciso envolver-se com riscos.

Há problemas de formação, no futebol, que impedem sua soltura. A rápida ascensão social dos atletas é um deles. Ganha-se muito dinheiro repetinamente. A cabeça não aguenta. A esnobação aparece, nas compras de carros e mudanças radicais de endereços. Tudo bem? Os clubes deveriam cuidar melhor das suas revelações. Não custa investir em planejamentos que ultrapassem o tilintar constante do mercado da bola. As louvações ficam para os empresários e os cenários dos euros. A  perplexidade gera euforias que possuem ambiguidades. A grana é volátil.

Não se pode negar o talento de Neymar, Ganso, Pato, Lucas Silva. No entanto, as experiências de vida contam muito no crescimento individual. Todos de olhos fixos no fabuloso Real Madrid ou no fantástico Milan. Na hora das partidas, nos momentos de decisão, falta foco e as vaias tomam conta da plateia. A imprensa noticia surpreendida o desandar da carruagem. No entanto, os ídolos são produzidos pela mídia ou com seu indispensável auxílio. Cadê a sensatez, qual é o lugar da coerência? Observe as entrevistas dos craques, depois das derrotas, das frustrações consumadas. Elas demonstram um despreparo profundo ou uma arrogância desmedida.

O espetáculo se desfaz e a cerveja desejada se torna ácida, na mesa apetitosa dos telespectadores. Então, as análise se multiplicam na turbulência das lamentações. Os culpados são degolados. O efêmero festeja mais uma aparição, diante dos enganos e da pressa de quem cultiva a idolatria. A articulação entre o particular e o geral não é lembrada. Nem se toca nos poderes desmesurados de Ricardo Teixeira, na forma autoritária da sua conduta. Tudo permanece na superfície. Quem sabe Neymar desperte e o show volte a assanhar os milhões. Tudo é possivel. Para que servem as firulas das ilusões?

O futebol não é uma ilha, nem o Brasil um exemplo único. Os argentinos , também, criticam Messi. Ele se refaz querendo se livrar da pressão. O coração bate forte, pois, no esporte, a emoção estende sua soberania. Não tenho a pretensão de eliminá-la. Salve o direito de gostar, de vibrar, de se divertir! O mundo precisa de leveza e de encontro, fora do império dos negócios frios e objetivos. Isso não significa consagrar ingenuidades ou entusiasmar-se com as palavras de ordem dos senhores das notícias. A história nos mostra que silêncios prolongados aprofundam desmantelos. As coisa acontecem nas construções do social. Portanto, quando se atrofia o coletivo, todos perdem. Não é assim, também, no futebol ?

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5 Comments »

 
  • Gleidson Lins disse:

    Duas constatações que podem ser retiradas dessa Copa América: as principais seleções europeias estão um passo à frente das sul-americanas e o futebol sul-americano parece ter perdido a sua magia. Os argentinos esqueceram o seu vistoso estilo “toco y me voy”, além de não demonstrar a típica garra. Os uruguaios, de quem se esperava um futebol mais forte, deve ter esquecido de continuar suas ascenção após o último mundial. E o Brasil: bem, o Brasil perdeu o caminho do futebol alegre e envolvente desde a Copa das Confederações de 2005. De lá pra cá, falta de comando técnico (Parreira) e técnicos limitados na arte de armar grandes equipes e saber utilizar o talento individual em prol do grupo (Dunga e Mano Menezes) estão enterrando a seleção. Além disso, a mídia fabrica craques que não existem, e as promessas decepcionam. Feliz da CBF que a próxima copa é no Brasil e a classificação esta garantida. Senão…

    Abs,
    Gleidson Lins

  • João Paulo disse:

    Concordo com o colega Gleidson, só acho que a decadência do “toco y me voy”, da garra uruguaia e da alegria e espontaneidade do futebol brasileiro tem colaborado para abrilhantar o futebol europeu, de um modo geral. Há também a questão dos clubes europeus aproveitarem ao máximo seus dispendiosos jogadores, deixando-os um bagaço após a temporada, literalmente. Meu pai dizia que: “Antigamente os jogadores queriam um clube grande, tanto daqui como de lá, para chegar à seleção. Hoje é o contrário, e olhe lá!”

  • João Paulo disse:

    abraços,

  • João

    A empolgação com o sucesso apaga o brilho da firula e da improvisão. Quem vi aquele Santos de Pelé jogando…
    Pois é. Vale o mercado, sem sutileza. É uma pena. Acabou a boa diversão. É a propaganda que conta e enfeitiça.
    abs
    antonio paulo

  • Gleidson

    Boa síntese. Muita coisa se perdeu, pois a mercadoria é a dose máxima. Muitos jogadores nem se tocam e querem a boa grana. É lastimável.
    abs
    antonio paulo

 

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