As aparências disfarçam a violência desmedida

O cotidiano é pesado. Viver é correr atrás de resultados e sucessos. Pouca reflexão, mas muita vontade de acumular grana e se dá bem socialmente. É o mundo das aparências que os meios de comunicação ilustram. As análises do que acontece ficam submersas em poucas palavras. Falta profundidade. Poucos se ligam nas urgências da maioria. Há um conformismo que apaga rebeldias e  também críticas, desconcertos que perturbam os núcleos das questões. A multiplicidade é grande. Visualizar causas sem pensar nos entrelaçamentos não ajuda a compreensão. Portanto, predominam choques e escândalos que se vão com rapidez, sem que os abismos sejam visitados.A concentração de violência forma hábitos e banaliza emoções de insatisfação.

 As informações são frequentes, invadem a tela do computador, abalam o sossego, as distrações. Elas assustam, difundem o horror. Não fazem, contudo, as perguntas principais. Descrevem o vivido, mostram sinais de solidariedade, atropelam-se com outros fatos. Muitas vezes, temos imagens incompletas, textos pouco comprometidos. Ficamos cansados com os assédios de tantos descontroles, com a mistura  de tantos desejos e conflitos. Lembro Italo Calvino: Mas como o espírito humano é incapaz de conceber o infinito, até mesmo se retrai espantado diante da simples ideia, não lhe resta senão contentar-se com o indefinido, com as sensações que, mesclando-se uma às outras, criam um impressão de ilimitado, ilusória mais sem dúvida agradável.

O fôlego dos nossos sentimentos sobrevive com ilusões, pois é preciso respirar para se desviar do sufoco das competições. A incompletude é constante, porém isto não é tudo. O perigo é a naturalização da barbárie e das centralizações do poder. O olhar histórico não é consagrado. A violência amedronta.Ela se encontra nas esquinas, nas madrugadas, nas festas das elites, na miséria das chamadas periferias, nas avenidas centrais. Não há lugares especiais, nem é possível quantificá-la. A incerteza ronda as relações, derrubando afetividades e fermentando solidões.

Nas turbulências das agitações, vivemos e não é saudável desistir de interpretar as circunstâncias que nos cercam. As repetições mobilizam inseguranças. Não há como esquecer que a sociedade capitalista produz desigualdades e fabrica máscaras com sutilezas persistentes. As desigualdades estimulam desequilíbrios e são a porta de entrada da violência. A sedução da droga não pode ser explicada apenas como vício. Há estruturas que permitem sua expansão. As manipulações criam os disfarces justificados, muitas vezes, pelos dualismos religiosos. O sistema incentiva a arrogância e a simulação. Há territórios de vaidades e corrupções.

O mundo não poderia ser pacífico diante de tantas disputas. A marca do consumismo cresce, como uma obrigação que garante as benevolências do ter. A violência é uma resposta. Possui suas atmosferas simbólicas, registradas nas leis e, até mesmo, nas disciplinas escolares. Cogitar um mundo com desacertos visíveis sem ações de desmantelos e desamor é uma falácia que os disfarces tentam manter. Quem vence, quem domina, não costuma esticar transparências. Por isso, as informações chegam superficiais e não penetram no desejo de desmontar o que acelera os desencontros. As manchetes circulam vendendo sensacionalismos. O mundo não tem como curar suas feridas.

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