As astúcias da vida, as astúcias de Ulisses

 

Pouco falamos da Astúcia de Ulisses. Muita gente me pergunta sobre a escolha do nome do blog. Ficam surpresos. Não foi nada pesquisado, coisas de especulações intelectuais antigas. Sou intuitivo e sigo caminhos que pintam, sobretudo quando estou no mundo da imaginação. Portanto, não me situo bem no Penso, logo existo, de Descartes. Não radicalizo. Nada como uma análise construída, com cuidado e sem preconceitos racionalistas. Confesso que me seduzi pelo título Astúcia de Ulisses. Ele veio e ficou, sem dúvidas menores ou maiores. Primeiro, dediquei-me às aventuras do  futebol. Depois, uma navegação geral, nas relações da cultura e da história, tentando me conectar, mais de perto, com as pessoas.

Sou professor. Não compreendo a profissão sem o fluir da afetividade. É estranho estimular o conhecimento, sem dividir experiências, sem comentar o cotidiano. A ausência de ligação com os sentimentos é, para mim, um suicídio pedagógico. O tempo é simultaneidade. Não dá para descrever o presente sem acionar memórias e contrapontos. Estou longe do linear, das história amarradas, sem fôlego para possibilidades. Firmei uma trilha que sigo, sem hesitações. Não quero isolamentos. A educação pede convivência, debate, multiplicidade. Citar livros, datas, autores não é tudo. Produz, muitas vezes, uma atmosfera de arrogância.

Razão e sensibilidade, com diz o grande Eduardo Galeano nos últimos pronunciamentos e obras. Merece atenção o movimento das relações sociais, mesmo que haja dissabores e pessimismos. A história não está terminada e  podemos refazê-la, sem negar a incompletude, sabendo dos limites, mas assanhando a invenção e a coragem. A astúcia entra no cenário das mobilizações. Fugir da mesmice, não se enganar com o discurso competente, desconfiar da verdade consagrada, tudo isso anima o coração e desmancha as apatias. É preciso olhar o visível e o invisível. É a chave da astúcia. Transcender o momento, buscar desenhos desconhecidos.

Todo dia, vocês contemplam no blog, o quadro de J. William  Waterhouse, pintor inglês, do século XIX. É belo, com traços marcantes do neoclassicismo. Lá estão Ulisses e as sereias. Querem encantá-lo. Ele consegue armar uma estratégia de sobrevivência. Tem êxito. Ouve o canto das sereias, mas mantém a sua autonomia. Localizemos a situação no dia o dia da aldeia global. Não faltam armadilhas, tampouco abismos. Quem vence e ocupa os governos possuem planejamentos de dominação. Não fazem, apenas, projetos. O poder demanda saberes, competências, astúcias, ilusões. A sociedade mergulha em conflitos e veste suas diferenças. É luta.

Escrever faz parte do meu estar no mundo. Não reclamo. É uma forma de respirar, de alargar horizontes, de observar as redefinições da história. Ulisses simboliza travessias fundantes, nos lembra a difícil construção das culturas, os sinais das linguagens, as disputas por lugares privilegiados. Muitas continuidades que não se desfizerem. Hoje, a sociedade está submersa em tecnologias, as embarcações são outras, a complexidade registra o fluir constante de informações. A felicidade não deixou de puxar teorias. Talvez, exista. Talvez, seja um momento raro. Melhor é não fechar o cerco. As culturas não dispensam a solidariedade. Isso é fundamental.

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4 Comments »

 
  • Filipe Machado disse:

    Professor, como seu aluno no semestre anterior, posso dizer que com toda certeza o Sr. transmite valores e relata experiências em suas aulas. Parabéns pelo texto.

  • Amanda Oliveira disse:

    É interessante como o ser humano-por mais que queira-não consegue “guardar” totalmente o que é,o que existe em sua essência…
    “Ulisses”,com as suas astúcias,torna-se cada vez mais surpreendente.

  • Filipe

    Grato pela observação.
    abs
    antonio

  • Amanda

    Esse diálogo entre a permanância e a mudança é o desafio. Somos históricos, mas as transformações não são radicais.
    abs
    antonio

 

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