As aventuras e os desconcertos permanentes

Muita gente próxima, ouvindo notícias diferentes e sendo assanhada por propagandas insinuantes, faz a convivência flutuar com surpresas e acontecimentos bizarros. Mortes, violências, malabarismos, com as mais diversas formas, mostram como é difícil controlar os desejos. Quando a medida se desfia, tudo se torna possível. A corda esticada da tensão puxa os sentimentos. Os desatinos aparecem e as bases tremem.

Como não há explicação que determine as regras que regem o universo, a dúvida e a incerteza não perdem seus lugares. Especula-se muito. Há teóricos de plantão e especialistas, em tragédias, que tentam amenizar  impactos. O desconforto, porém, não cessa. Nos Estado Unidos, tramam-se  crimes que deixam a população atordoada. Em Nova Yorkque, no final da semana passado, Maksim Gelman matou quatro pessoas a facadas. Parecia enfurecido, fora de si. Estava na estação de metrô Times Square. Até a polícia ficou chocada com os ataques de Gelman. Por que  tanta agressividade ? O terror assusta e denuncia.

As aventuras do cotidiano não se restringem  às (des)razões. Há opções de divertimentos, vontades de mudar trajetórias e buscas de renovação. É a complexidade que fascina e intimida. Com atenção, observa-se um mecanismo que compensa e desvia. Se as assombrações e desacertos ganham manchetes, na imprensa, para outros é inútil se fixarem  pessimismos, pois estes decompõem a alegria. Ferir ou  esquecer os limites? A imaginação é, apenas, para alimentar os devaneios artísticos? O desequilíbrio está presente, não podemos apagá-lo de vez, porém a sensibilidade não está travada e o coração não bate, apenas, em função das perdas.

Por isso, as culturas não se fecham, mesmo que convivam com repetições e vejam muitas utopias tropeçarem. Há tempos e tintas para traçar ânimos, sem as vacilações das ambiguidades. Os jogos, as diversões, as sabedorias desenham-se como energias culturais travessas. Nos simples movimentos, as reviravoltas se anunciam. O Brasil perdeu para França e tornou-se campeão, sub-20, no Peru. O futebol registra os vaivéns e traz símbolos importantes. Ronaldo despediu-se provocando choros e contrapontos. As mitologias ganham espaços crescentes, num mundo de utilitarismos múltiplos. O apocalipse não se senta na praça. Estica-se nas profecias.

O que incomoda é a falta de cuidado. Muitas vezes, os totalitarismos avançam com toda força. Não são, apenas, transtornos políticos e cidadanias fragmentadas, mas violências desmesuradas.É necessário focar, sem distrações, as coisas pequenas, as relações que estão próximas. A televisão nos coloca no Afeganistão ou em Tóquio. Tudo cerca minha casa, com imagens planetárias. E as relações de vizinhança ? Quem mora junto ao meu quarto ou mesmo divide a mesma cama? Sobram lamentações. Os superficiais amores das novelas e os vazios   paredões do Big Brother enchem os divãs das salas.

O ponto de partida, para se chegar aos outros, é manter um bom diálogo com suas próprias controvérsias. Quem não governa suas circunstâncias, naufraga na superfície da lama. Gostamos das grandiosidades. Elas atiçam a vaidade. Triste é que pouco nos vemos no espelho, saímos de casa correndo, para sermos anônimos na rua. A gente vive, eu acho, é mesmo para se desiludir e desmisturar( G. Rosa). No caranaval, quem não se veste com o sonho escondido e ousado?

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3 Comments »

 
  • Edu Castro disse:

    Professor, confesso que tenho que ler algumas vezes o texto para começar a entender… São muitas informações e tão poucas linhas.
    Entre tantas reflexões intrigantes, destaco a grande de pensamentos do terceiro parágrafo. Talvez aquele acaso, que já falei, seja o responsável pelo cotidiano fazendo as confusões da razão e fazendo o coração bater em rítimos alternados graças a sua sensibilidade. Diria que a complexidade fascina os curiosos e intimida os fracos de vontade de mudança… É bom ler seus texto, estarei sempre por a partir de agora.

  • Edu

    A leitura tem ritmo de aprendizado. Todos passamos por esses momentos. Depois, construímos as coisas com mais clareza. Mas é um contato com a vida.
    abs
    antonio paulp

  • Edu Castro disse:

    Digo, ritmo*

 

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