As carências escondidas, as riquezas concentradas

Multiplicar a riqueza não é o pecado capital. Havia condenações nas leis católicas da Idade Média. Mas Igreja nunca foi muito comportado. Defendia o justo preço e se enchia de terras. Era a maior proprietária de terras nos tempos do feudalismo. Morava nas ambiguidades, entre santos e culpados. A história girou, trouxe revoluções e desafios, porém não acabou com as desconfianças. As grandes instituições continuam com seus escorregões. A sociedade busca exemplos e recebe ilusões. As travessias se alongam com as perdas cotidianas, por desmantelos do poder público.A riqueza multiplicou-se com a ampliação do capitalismo. No entanto, a sua concentração colabora para permanência da desigualdade.

Há celebrados piques desenvolvimentistas. Muitas propagandas, para vender de carros a sandálias de plástico. Observe o que ela propagam  e projetam. Só que o paraíso não chega. Criam-se artimanhas para confundir a memória. Elas funcionam e mascaram.Um gole de Skol vale o risco de voar sem proteção. Um passeio nos automóveis, da moda, é um delírio. Todos param para contemplar suas linhas e cores, marcadas por tecnologias avançadas e únicas.As propagandas dos perfumes mais badaladas eram tão caras que ameaçavam os lucros. As empresas pactuaram para refazer suas contas.

Hoje, o luxo está mais a serviço da promoção de uma imagem pessoal do que de imagem de classe (Lipovetsky e Roux). Quebram-se laços de sociabilidade, pois as crenças são passageiras. A aparência ganha espaço na competição. É ponto de atração. O capitalismo remonta suas estratégias, de acordo com as andanças do individualismo. As marcas devem permanecer vigilantes no que se refere à sensibilidade dos consumidores ao preço, à inflação de lançamento de produtos novos, à duração da vida dos produtos… (Lipovetsky e Roux).O culto ao luxo vem se fortalecendo. As marcas famosas são poderosas. Ocupam lojas de destaque. Usá-las é desfilar longe do anônimo.

Porém, é preciso outras astúcias. Muita concentração de riqueza pode desestabilizar e instigar rancores. O luxo deve caminhar com malabarismos de imitação. Você não tem um perfume Salvador Dali ? Não se preocupe que a Avon está organizando-se para evitar suas frustrações. As embalagens trazem satisfações inusitadas. As pessoas não se embalam com as suas vestimentas? Quem não aprecia um bom rótulo? O conteúdo é um complemento, pode ser desprezado. O silêncio pode render dividendos e crítica desemprego. Não se trata de exagero. Leia  O luxo eterno ( da idade do sagrado ao tempo das marcas) de Gilles Lipovetsky e Elyette Roux.

Até o luxo possui sua história. Não surge, de repente, para fazer brilhar os senhores das riquezas mais refinadas. O capitalismo inquieta o desejo, mas ele já existia. Pergunte a Adão e Eva ? Ou a maça é a síntese de tudo? Cada sociedade alicerça suas manobras, espertam comportamentos profanos, onde parecia haver o sagrado. As interpretações históricas não se sustentam na linearidade. Tempos remotos dialogam com contemporaneidades. Um olhar para as formas ilumina labirintos de dominação. O segredo  não se restringe ao tamanho. Muitas vezes, um pedaço de papel com carimbos e assinaturas superam o valor de extensas propriedades territoriais. Duvida?

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8 Comments »

 
  • Geovanni Cabral disse:

    Bom dia amigo, boas reflexões para uma manhã chuvosa, repleta de inquietações e angústias. Angústias das pessoas que se veem jogados ao acaso das autoridades públicas que vivem em suas riquezas concentradas. O individualismo é uma marca. O luxo é eterno. Nas suas palavras começo a andar por estradas sem fim , por possibilidades que a história nos faz vivenciar. O capitalismo foi uma dessas possiblidades que surgiu no tempo. Não pediu licença, nem tampouco procurou acordes, apenas ditou regras. Criou sua própria lei, o consumo. O luxo foi propagado e a ideia de felicidade nomeada. Nada fogem de sua teia, assim como uma aranha e sua presa. Lipovestsky ressaltam muito vem como a nossa imagem é criada para uma aceitação diante do sistema. É o Império do Efemêro e sua sedução. Sedução que encanta, que esconde, mas que também discrimina. Colocam os indivíduos em lugares distintos, na dicotomia, uns podem outros não. As estratégias são recriadas a cada instantes, a fantasia do belo, o homem ideal, o carro do século, a tv 3D, a pílula da felicidade, o amor eterno, a roupa de marca, o celular de ponta, ou seja, a Euforia Pérpetua. É como dizes, “a sociedade busca exemplos e recebe ilusões.Perdidos em suas verdades, aludidos com o paraiso eterno, feridos em sua própria dor. E o que observo é uma sociedade doentia, diante das incapacidades do não ter, do não consumir. Quantos amigos nossos mergulham nos antidrepressivos, nas receitas infaliveis, na ausência do amor dito eterno? Quantas carências estão escondidas, quantos afetos não revelados se perdem nas multidões? Como tudo seria mais simples se os homens ouvissem a filosofia.

  • Geovanni

    Esquecemos a diversidade que o mundo apresenta. Há muitas seduções e nem todos ficam curtindo sofrimentos. O consumo mexe e fornece campo para devaneios.
    abs
    antonio paulo

  • Flávia Campos disse:

    Antonio,
    Bons textos, imagens instigantes, silêncios que falam, questões que calam…
    Vale a pena se apavorar com “um sofista em nossa casa” a nos tirar da acomodação frequente.
    E permitir que “as sombras e as luzes desenhem o entardecer.”
    Assim, “vamos vivendo.” (…) “Atraídos por distâncias e, às vezes, somos desacomodados pelo que está mais próximo.”
    Sem esquecer que “o que move a vida é o seu diálogo com os sentimentos.”
    Rezende nos lembra ainda que “a solidariedade se arrasta.” Mas, como Agualusa, precisamos aprender a “ viver o tempo do agora, sem aprisionamentos.”
    Escrever o mundo e projetar o humano em meio “às marcas da tecnociência”, às sombras da violência simbólica, “a dor do outro”…
    E nos questionar sempre: “Como sonhar com a harmonia?”
    Sem essas bem traçadas linhas, Antonio, seria difícil clarificar a complexidade do viver juntos.
    Em seu texto “A lua da língua”, André Laurentino nos diz que “existe uma língua para ser usada de dia, debaixo da luz forte do sentido. Língua suada, ensopada de precisão” (…) Mas, “quando a língua em si mesma anoitece, o escuro espatifa o sentido (…) A linguagem se perde dos trilhos, de por onde ir (…) esbarra em regras, arrastando a mobília das normas, deixando no carpete apenas as marcas de onde um dia estiveram outros móveis. À noite, sonha nossa lingua.”
    Obrigada, Antonio, por conseguir, no “entardecer da linguagem” nos permitir enxergar, como diria Mário Quintana, “o indivisível da vida” em seu “eterno diálogo”, no qual “pertence a mais inconsequente conversa.”
    Bjs
    Flávia

  • Bom dia Prof° Antonio,
    Muito bom o texto. Realmente, o consumo e o luxo parecem ter substituído os ideais de liberdade e igualdade de outrora. Os problemas coletivos valem pouco frente aos problemas individuais.
    Por coincidência, escrevi algo relacionado ao tema no meu blog.

    http://www.blogdejonathas.blogspot.com/

    Se o sr. puder dar uma olhada e comentar, ficarei agradecido.

    Abraços, Jônathas Cruz

  • Jônathas

    Vou ver seu blog e grato pela presença.
    abs
    antonio paulo

  • Flávia

    Fez uma boa síntese das questões levantadas, com uma escrita bem articulada com a temática e sugestiva para outras reflexões.
    Grato
    bjs
    antonio paulo

  • Gleidson Lins disse:

    Ontem assisti um episódio de um documentário, A Terra Vista de Cima, do fotógrafo francês Yann Arthus-Bertrand, enfocando como o consumismo desenfreado na Europa, China, Japão e Estados Unidos, afeta outras regiões do planeta. O documentário foi ao oeste do Congo, onde um mineral de muito valor, o coltan (pentóxido de tântalo) é extraído em condições sub-humanas. Esse mineral está presente em todos os aparelhos celulares, computadores e outros aparelhos eletrônicos. O seu valor no mercado internacional chega a três vezes o do ouro. O valor pago ao mineradores por dia não passa de 3 euros, mas ele é valorizado mais de mil vezes ao chegar aos fabricantes de celulares. As milícias armadas tribais em constante guerra civil no Congo usam esse mineral ilegalmente como moeda de troca por armas e munições. E mais: a região está sendo devastada, pondo em risco de extinção os raríssimos gorilas das montanhas. Resoluções internacionais proibiram as empresas fabricantes de celulares a compra ilegal do coltan, o que elas acataram, em tese. Elas continuam comprando avidamente o minério através de atravessadores que o legalizam, mantendo o financimento da guerra civil. Ou seja, em última instância, cada aparelho celular comprando está financiando um desastre ecológico, opressão de pessoas e uma guerra civil. Ele mostra também outros exemplos de como o consumismo afeta determinadas regiões, como a expansão da soja no Centro-Oeste, que desloca populações e elimina biomas, para alimentar as criações de gado e galinhas na Europa; a pesca do atum azul pelos japoneses se continuar como está, estinguirá a espécie em menos de dez anos, tudo pelo gosto dos japoneses pela carne desse peixe, vendido a altos valores.
    Esses são apenas alguns exemplos. Para alguns viverem no consumismo, outros têm que pagar por isso. E pagam caro. Muito Caro.

  • Gleidson
    Boas informações. Assim, articulamos o diálogo e o comentário entra na composição do texto. Grato pela presença.
    abs
    antonio paulo

 

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