As confusões políticas e a corrida eleitoral

Não precisa de muita esperteza para se esconder da vida social. A ausência física pode provocar desconfianças e abalar honras antigas. Hoje, as sofisticações são muitas. Com tanta tecnologia desenvolvida, os labirintos se multiplicaram e as estradas pedem constantes sinalizações. Mas a razão cínica consegue se virar. As mudanças ocorrem. Não vamos desejar um mundo fixo com os mesmos significados do século passado. Por isso, mudam as gramáticas, os paradigmas, os valores das bolsas. No entanto, a convivência social, quando se fragmenta muito, provoca turbulências. As questões das referências e dos pertencimentos merecem atenção e cuidado minucioso. Nada surge, repentinamente, descolado, vadio e sem destino.

Na política, as perturbações cotidianas nos deixam atônitos. Não há negar que as ideias flutuam numa velocidade assustadora. Faltam compromissos que definam a razão das escolhas. A confusão assanha-se na mídia, nos discursos das lideranças, na ansiedade dos partidos. Querem salvar ídolos. Não se discute. Opta-se pela agressividade imediata. Vale o espetáculo cheio de jogos de palavras. O que é o socialismo? Por onde se refaz o capitalismo? As alianças políticas costumam reafirmar coerências? Qualquer voto é precioso e digno? As perguntas invadem o cenário, pois o vaivém não sossega, acelera-se.

Há um esvaziamento sensível. Penetre na história e contemple as disputas de outros tempos. Não fique na nostalgia, nem queira ressuscitar comportamentos. Ninguém mora numa ingenuidade absoluta. A repetição existe  com suas lacunas e escorregões. O que assusta é o desfiar da sociabilidade. O individualismo é crescente. Está longe de compartilhar autonomias, porém mostra que os egocentrismos fortalecem-se e assumem força desmedida. Os ritmos compõem-se acolhendo acrobacias que representam formas de disfarces. Todos os candidatos elogiam o povo que mais parece uma entidade abstrata do que um conjunto de cidadãos. O saber do especialista define as estratégias numa cartilha quase comum  a todos no seu  poder de convencimento.

Não estamos na época da revolução francesa, nem no tempo das lutas contra as colonizações europeias. Existem ditaduras, a política se faz com pactos e dissidências e as utopias, ainda, ocupam corações. Quem gosta, acompanha as idas e vindas das especulações sobre a política, observa continuidades, descobre semelhanças, fica, ainda, indignado com as manobras violentas de Hitler, medita sobre os interesses de Maquiavel e as andanças revolucionárias de Guevara. Anular a diversidade não traz fôlego para reflexão. Mas é fundamental que as escolhas não se construam nas vitrines dos shoppings, na agitação do reino da mercadoria.

Os alicerces de uma desconfiança que se amplia não é algo surpreendente. Há muita gente que não se contenta em festejar cargos e celebra as vaidades da política profissionalizada. A memória retoma sentimentos. No entanto, quem enfrenta as escolhas dos valores pela primeira vez, quem exercita sua experiência cercado pelo descartável e pelas imagens da vida, sente-se abalado. A frustração é um descaminho amargo, ensina e angustia, desmonta e desfigura. Não é fácil o confronto. Olhar as histórias e analisar as envolventes articulações do poder levantam indagações e atiçam a crítica. Sacudir a política no abismo é risco sem nome.

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2 Comments »

 
  • jose batista disse:

    O texto nos afasta do tom paroquial que a política toma e tem tomado no período eleitoral. Retoma valores maiores e desvela contextos de importância para o humano. Châpeau!

  • José

    Muito grato.
    abs
    antonio paulo

 

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