As conversas, as amizades, o virtual, o descuido

Desculpem o saudosismo. Talvez, seja a idade ou as perdas que tive recentemente. Estou muito nas viagens ao passado e me interrogando sobre coisas, pessoas, práticas. Li uma entrevista de Ziraldo que me tocou. Fala que o livro é a maior invenção humana. Alerta para o vazio de hoje. Gostei do que ele disse, apenas acho que a conversa é a invenção maior da cultura. Ela segura a sociabilidade, ajuda a curtir os afetos, provoca sonoridade. Não dá para especificar tudo. Seria um tratado que não cabe nesse espaço apressado dos comandos virtuais. A síntese não deve ser perdida, com o cuidado de não cultivar lamentos, excessivamente, interiores.

As certezas voam. Cada vez que o mundo se enche de conquistas, as teorias e as cores se multiplicam, as palavras aflitas buscam engrenar outros significados. Não reforcemos a ideia de que a história é pura metamorfose. Há  misturas. A rapidez cria confusão. A memória sofre com tanta turbulência e os calendários firmam agendas de trabalho e pagamentos. Os exageros dificultam que o tempo tenha o ritmo que nos agrade. Somos levados a usar e-mail, a escrever mensagens codificadas. O velho telefone tornou-se um objeto pesado. Vale o celular pleno de tecnologia.

Não abandono o moderno ou o pós-moderno. Adormecer na nostalgia nos coloca fora do mundo. Com então compreendê-los se anularmos os malabarismos da cultura? Resta avaliar cada relação, cada mudança, tentando escutar como os afetos fabricam seus silêncios e  ruídos. Os significados das ações humanas não se fixam, mas também não deixam de remontar as lembranças. Vemos, hoje, filmes que nos impressionaram na adolescência, com os olhos de uma sociedade delirante e entusiasmada com a sofisticação dos espetáculos. O que sobra para observar os detalhes, espreguiçar a imaginação, socializar os sentimentos?

Todo época possui suas medidas. Temos que aumentar o fôlego para poder segui-las. Se estamos numa rede social, nas travessias dos comentários dos faces, os sustos e as surpresas diferem muito de um bate-papo no banco da praça, com as crianças brincando e  o vento assanhando as folhas das árvores. É necessário excluir alguma coisa, remeter-se ao passado de forma radical? Não desprezamos as escolhas, mas não podemos nos ausentar do mundo que nos cerca. É um desafio, não adianta ignorá-lo. Nas aventuras da vida, costuramos vestes de todos os tamanhos e, às vezes, nos descobrimos nus. O que não existe é fórmula exata, porém a sensibilidade traz espertezas.

As repetições servem para lapidar a paciência. No entanto, a compulsão à repetição atrai o desequilíbrio, soberanias ilusórias que nos distanciam dos outros. As práticas sociais não são neutras. Desenham as geometrias das ambições e das vaidades. Se a conversa ficar presa na velocidade, a despedida surge como um caminho para não despertar mais incômodos. A atmosfera nutre-se com o perfume das novidades. Há quem não viva sem elas. Há quem as acumule com se fossem uma dádiva especial. Eu desconfio. Prefiro ver o corpo e não mergulhar na imaginação. Um mundo  sem toques é território de solidões anônimas.

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9 Comments »

 
  • Raquel Muniz disse:

    Acredito em mim, em você, acredito no humano. O homem sempre arruma um jeito de se comunicar. A conversa é sempre o motivo central, seres sociais que somos.
    Houve um tempo em que as cartas alimentavam os amores à distância, lenitivo para quem não tinha o privilégio da presença. Com a chegada do telefone imaginou-se que ele seria mais um fomentador da presença que não está lá… E o toque, e o aperto de mão, o beijo… onde estariam?! Sabe como é, com o telefone não se escreveriam mais cartas, com a chegada do cinema e da televisão não se iria mais a teatro ou a shows…
    Na intrernáutica também tem espaço para as surpresas, pode notar. No Face semmpre tem uma mensagem de quem você nem imaginava, uma marcação inesperada, um comentário inteligente, algo que vale a pena curtir…
    Na falta daquele abraço, não esqueçamos que existem sempre aquele botão de desconectar. E ele nos pertence. Sempre.

  • Raquel Muniz disse:

    Acredito em mim, em você, acredito no humano. O homem sempre arruma um jeito de se comunicar. A conversa é sempre o motivo central, seres sociais que somos.
    Houve um tempo em que as cartas alimentavam os amores à distância, lenitivo para quem não tinha o privilégio da presença. Com a chegada do telefone imaginou-se que ele seria mais um fomentador da presença que não está lá… E o toque, e o aperto de mão, o beijo… onde estariam?! Sabe como é, com o telefone não se escreveriam mais cartas, com a chegada do cinema e da televisão não se iria mais a teatro ou a shows…
    Na comunicação internáutica também tem espaço para as surpresas, pode notar. No Face sempre tem uma mensagem de quem você nem imaginava, uma marcação inesperada, um comentário inteligente, algo que vale a pena curtir…
    Na falta daquele abraço, não esqueçamos que existem sempre aquele botão de desconectar. E ele nos pertence. Sempre.

  • Franz disse:

    Antônio, não poderia deixar de compartilhar este pensamento de Heidegger.

    Quando a tecnologia e o dinheiro tiverem conquistado o mundo; quando qualquer acontecimento em qualquer lugar e a qualquer tempo se tiver tornado acessível com rapidez; quando se puder assistir em tempo real a um atentado no ocidente e a um concerto sinfônico no oriente; quando tempo significar apenas rapidez online; quando o tempo, como história, houver desaparecido da existência de todos os povos, quando um esportista ou artista de mercado valer como grande homem de um povo; quando as cifras em milhões significarem triunfo, – então, justamente então – reviverão como fantasma as perguntas: Para quê? Para onde? E agora? A decadência dos povos já terá ido tão longe, que quase não terão mais força de espírito para ver e avaliar a decadência simplesmente como… Decadência. Essa constatação nada tem a ver com pessimismo cultural, nem tampouco, com otimismo… O obscurecimento do mundo, a destruição da terra, a massificação do homem, a suspeita odiosa contra tudo que é criador e livre, já atingiu tais dimensões, que categorias tão pueris, como pessimismo e otimismo, já haverão de ter se tornado ridículas.

  • Rosário disse:

    Antonio Paulo,

    Em tempos de facebook, onde a ordem é postar, publicar, colocar em rede as menores aventuras cotidianas, precisamos fazer como o poeta Manoel de Barros: escapar por metáforas. Aprender a desobedecer na escrita e no virtual; aprender a tocar nos ínfimos; e reaprender a errar a língua nas conversar. Tornar-se um buscador de desvios, um atalhador de caminhos, um ser nas coisas disfarçado, com a boca impregnada de árvores.

    Um abraço

  • Franz

    Grato pelo envio. É sempre uma ponte para pensar tantas coisas.
    abs
    antonio

  • Raquel

    O importante é não nos descolarmos do afeto. Isso nos liga e nos faz ter ânimo. Grato pelas palavras e solidariedade.
    abs
    antonio apulo

  • Flávia disse:

    Belíssimo, Antonio!!!
    É de tirar o fôlego.

    Depois de navegar por este texto-poema
    como não ficar mais atenta para
    “observar os detalhes,
    espreguiçar a imaginação,
    socializar os sentimentos?”
    Grata
    Bjs
    Flávia

  • Miguel Gomes disse:

    Antonio, estava fora e só li seu texto hoje, belo retrato contemporâneo do desligamento afetivo entre as pessoas. Desligamento aparente, aliás, posto que deixa marcas indeléveis na subjetividade. Grande abraço.

    Projetos para/com você no CPPL.

    Miguel

  • Miguel

    É isso. A sociedade corre solta, nem sabe para onde. Aguardo notícias suas. Meu fone é 32686225.
    abs
    antonio paulo

 

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