As conversas com os arcanjos andarilhos e poéticos

Todos já ouviram falar em arcanjos. Nem todos, porém, acreditam que eles existam. Muitos se ligam ao visível, ao que queima os olhos. O realismo é contagiante, pois nos coloca em frente a espelhos imensos. Tememos as assombrações, sem abandonar as fantasias. Queremos acompanhar, na superfície, evitando arranhões, o caminhar do mundo, insistindo que o horizonte tem , apenas, uma cor. É difícil enfrentar as faltas e cogitar a dimensão da finitude. Como tudo começou e vai findar? Será que não há nenhum perfume de magia e que 2 mais 2 são quatro? Quem refaz a máscara das aventuras?

O mundo possui muitas criaturas. Nem todas pesam ou escravizam-se nas tensões dos centros de gravidades. A leveza é fundamental. Para que ter os pés presos ao chão ou desenhar uma imaginação sem asas? Acho que muitas coisas se ocultam , porque desconhecem suas formas. Não dá para sintetizar a cartografia da cultura, com afirmações mínimas de alguém que passou por épocas com configurações únicas. Simplesmente, poucos anos podem não valer nada, embora tudo, às vezes, se decida num instante. Portanto, os devaneios merecem lugares nos amores mais estranhos.

A multiplicidade não é um engano. Não somos especiais, nem resultados de desejos pré-determinados. Não foi o capitalismo que trouxe a diversidade na ânsia pela fabricação das mercadorias. Não foi a ciência que nos invadiu com teorias e dúvidas sobre a poesia do efêmero. Desde as visões dos paraísos mais remotos que o cosmo não revela transparência. Não há como negar as sensações de naufrágios, nem as fugas para as cavernas profundas. Não basta se distrair com as vitrines dos shoppings, para observar que, na ordem de tantos objetos, há um caos divertido e ridículo.

Se voarmos ao encontro dos sonhos, o peso nos ajuda a não acordar. O corpo enrola-se com tecido frio do lençol, como uma proteção desavisada e fundante. Desmanche medidas que parecem inesgotáveis. Precisamos  ler as enciclopédias da vida. Elas não estão localizadas nas bibliotecas gigantescas dos arquivos públicos. Encontram-se nos ensinamentos gratuitos de uma conversa  num banco de praça ou num momento menos solene das discussões acadêmicas. Quando não dizemos o mesmo de sempre terminamos por nos aconchegar com verdades que, antes, nos incomodavam. Os arcanjos resolvem seus enigmas, escrevendo palavras como se estivessem pescando pérolas. Cantam como as sereias que ambicionavam seduzir Ulisses, o hermeneuta apaixonado pelos desfazeres das culturas e pelos remendos do manto de Penélope.

É na conexão com a estética que Deus profetiza a possibilidade do juízo final. Mas não se veste de certezas. Abomina quem lhe promete todas as orações e se encanta com quem entrelaça as astúcias dos poemas esquecidos. Não consegue deixar de ler Seis propostas para o próximos milênio e escutar os conselhos estratégicos de Italo Calvino, seu arcanjo predileto. Especular é uma dádiva. Deus descansou, no último dia, pois não acreditava que suas criaturas fossem optar pela soma e não pela divisão. O trabalho perdeu a força do dizer. Atirou-se no abismo de quem inventou a acumulação, sem  ser gauche na vida.

PS: O texto acima é dedicado à turma de pós-graduação em História da UFPE que participa das aulas das terças pela manhã.

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