As conversas da solidão na extensão do mundo

Muita gente nos cerca. Caminhamos enfrentando olhares negativos ou indiferentes, mas também ruídos de alegrias e surpresas. O mundo tem muitas pedras e rotas que não se esgotam. Planejar é uma dificuldade. Quando partimos para viver o cotidiano, aparentemente, tão simples, ficarmos perplexos com os desacertos e o inesperado. O dia apresenta-se com novidades incomuns, para quem estava com horários determinados e ânimo confiante. Não há como se livrar das incertezas e mostrar que a busca do equilíbrio não é uma singularidade. Podemos tropeçar nas pedras, porém há criatividade para transformá-las numa escultura pós-moderna?

Há multidões que surgem do nada. Nem por isso, a solidão se foi e encontrou seu labirinto definitivo. Somos múltiplos, convivemos com a pressa e a mesmice, contudo temos longas conversas que arrumam nossas escolhas. A instabilidade das verdades nos desmonta e traz fragilidades. Mas como escrever a narrativa do destino, se a própria solidão visita espaços tumultuados e não consegue completar seus exílios. O mundo ,é vasto, não apenas em seus territórios concretos. As interioridades inquietas exigem malabarismos e invenções. Os silêncios são disfarces e incomodam quem teme a reflexão.

Não há como esquecer-se da nossa própria imagem. Não precisamos de espelhos. A memória nos segue, é esperta na construção das geometrias, engana-se e redefine-se. A sequência linear é uma forma de fabricar destinos e tranquilizar os profetas das transcendências. As religiões enchem-se de cantos nas suas cerimônias. Entrelaçam-se com os desejos fugidios, porém, muitas vezes, tornam a morte a síntese da vida, mascarando os desconfortos das velhices dos corpos, enfatizando a eternidade que flutua nas agonias dos instantes para apagar o ponto final. Não seria, então, a solidão uma figura perene  ou tudo é jogo de peças desmontáveis? Talvez, o reino da especulação nos arraste para as fantasias. O paraíso se perdeu na origem e juízo final é a sepultura da dúvida.

Os outros nos cercam, no entanto não estão distantes dos devaneios e se sentem vestidos, protegido de qualquer nudez. Perguntas e respostas circulam. As conversas não consolidam conclusões. Há sempre um tempo para que desapareçam mitos e divindades, sem quem o vazio se instale e a melancolia arquitete o absoluto. Atravessando os avessos, jogamos a solidão no mundo, a confundimos com patologias, ressaltamos o desamparo. A multiplicidade de identidades nos embaralha. Olhamos as tragédias como brincadeiras efêmeras, quando a diversão é apenas um fôlego para a incompletude se abraçar com o sonho.

O texto nos tira do recolhimento. Ninguém desenha palavras para desconversar ou afugentar os chamados espíritos taciturnos. A história da solidão é a possibilidade de escutar-se,  de conectar-se com as diferenças que pareciam estranhas. Há um pertencimento que não se dilui, porque sem ele desconheceríamos qualquer referência. Os esconderijos guardam segredos que podem esgotar compreensões e torturar sabedorias. Os limites atuam nas ficções mais espantasosas e nas relações mais repetidas. Isso nos concilia com o mundo, mas não desmancha as suspeitas e nem articula o sossego. As conversas quebram-se porque necessitam de perguntas, mesmo que se descuidem das respostas.

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2 Comments »

 
  • Natascha Brayner disse:

    Esse caminhar solitário por entre uma multidão de passantes… Esse estranhamento do indivíduo resultado da busca por si mesmo no outro e que, por isso mesmo, não respeita essa alteridade, é profundamente angustiante. Uma necessidade de pertencimento apodera-se das entranhas de grande parte das pessoas; será uma necessidade natural do ser humano? Essa necessidade pode provocar efeitos devastadores em uma sociedade extremamente individualista e alicerçada em interesses obscuros… Para onde nos levará esse labirinto?

  • Natascha

    Acho que sempre lutamos com as idas e vindas da solidão. Mas a sociedade atual nutre o descartável de forma intensa. Isso gera esse individualismo que é cruel. Vamos ser otimistas e construir boas afetividades.Temos a nossa parte e é preciso cuidar dela.
    bjs
    antonio paulo

 

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