As conversas da solidão num mundo do ruído

Falar da solidão, num mundo massificado, parece despropósito. Não há paradoxo, nem tampouco melancolia em afirmar que o estar só acompanha a vida. O mundo está cheio de gente. O encontro com os outros é constante. Não devemos, no entanto, confundir a quantidade com a sutileza. Pessoas juntas, multidões ruidosas, avenidas barulhentas não confirmam que as vozes têm ecos ou respostas. O vazio surge, quando o desequilíbrio da emoção se constitui num instante inesperado. Há notícias que revertem alegrias ou recolhimentos. Então, olhamos o que nos cerca com despreza ou desconsolo e o brilho desaparece. Submergimos, para escutar o que a subjetividade quer anunciar, com segredos e silêncios.

A solidão faz parte da cultura e não é a negação da sociabilidade. Leia Paul Auster ( A Invenção da Solidão) ou mesmo Pamuck ( Istambul) e observe como eles arquitetam, as idas e as vindas de quem sai do movimento e, por estratégia, se volta para o espelho de dentro. Não há uma única forma de solidão.Seus mitos se inserem nas aventuras humanas sem escolher tempos. Quem duvida da dor de Prometeu na sua rebelião contra os poderosos? Como poderia sentir sua raiva, sem mergulhar na solidão e achar seu caminho de certezas? Narciso estava envolvido com a sua beleza ou renegava a vida social e temia amarguras? Não pense que a solidão é a distância de física de outros corpos.Muitas vezes, é um sentimento atento e sensível, desconfiado das repetições e dos determinismos.

A modernidade fez da crítica um exercício frequente. O solitário reflete, busca saídas ou se entrega ao descaso. Portanto, fabricar adjetivos para analisar os descolamentos da existência é sempre um jogo. A solidão significa uma conversa com a autonomia ou  a desistência do perfume traiçoeiro do coletivo ? Escrever é dissociar-se, mas também entrar no mundo por portas infnitas. Assim, se desenham as transcendências. Há aquela rosa vermelha que se entrega aos amores de um beija-flor, na solidão da sua cor forte e serena. Há aquela estrela que não ousa lançar sua luz no universo, preferindo desfazer-se na imensidão do horizonte. Tudo pode ser dito, a argila não inibe as formas. Ela amplia o sonho do artesão, o mapa do céu.

O ruído impede a meditação profunda. No entanto, há espaços para atravessá-lo. Os desertos se fazem no meio dos burburinhos. Entre o visível e o invisível sobram dimensões da incompletude e do desejo de superar a impossibilidade do voo. O artista inquieta-se, quando não percebe que o tempo passa. É tomado pela sensação de que suspenderam seu ser e estão lhe chamando para visitar a eternidade. Esse é um momento de solidão inexplicável. O sentimento de solidão, nostalgia de um corpo do qual fomos arancados, é nostalgia de espaço (Octavio Paz). Quem sabe a medida daquilo que surpreende ? Por que as culturas possuem memórias de paraísos perdidos? O agora ganha significado quando ultrapassa a burocracia do calendário. Todos esperam que a sociedade volte a sua liberdade original e os homens a sua primitiva pureza ( Octavio Paz). Vale a pena se perder nesse delírio?

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23 Comments »

 
  • Gleidson Lins disse:

    Busco sempre momentos de solidão. Com a constante agitação diária, os momentos de solidão me aprazem e ajudam a recarregar as energias.
    Identifico-me com um trecho de uma canção da banda gaúcha Engenheiros do Hawaii, Vozes, de 1986: “Se você sofresse tanto quanto eu sofro com a solidão / E precisasse tanto quanto eu preciso da solidão…”

    abs,
    Gleidson

  • Paulo Marcelo disse:

    Acho que sempre devemos mante-los vivo pois sem os sonhos
    perdemos a essência da vida……

  • Julio Cesar Silva disse:

    Creio que a solidão é um exercício útil para aqueles que se entediaram do cotidiano frugal e sem sentido das eras. O solitário, mesmo aquele que está envolto em multidões ruidosas ( acredito que este é o mais sofrível de todos, pois ainda reluta em se isolar, usando o modismo de uma gregariedade muitas vezes inócua para si, e se aglutina, confundindo-se com a balbúrdia), parece desprender-se de um conceito de coletividade, muitas vezes por esta não apresentar nada de novo; sensações, harmonias, ideais e gestos monótonos, insossos, quando não mesmo sádicos.

    Uma solidão bem adminstrada, sem rompimentos internos entre a realidade diária dos encontros, que proporciona material para a vida ,e a introspecção que recarrega as energias e avalia os propósitos, parece ser viável, pelo menos pra mim.

    Julio Silva.

  • Julio

    A solidão traz um mergulho nas coisas da vida, desde que não se torna uma fuga contínua. Ajuda a olhar o mundo com mais cuidado.
    abs
    antonio paulo

  • Paulo

    Há sentimentos que ajudam na construção da vida e da história. Basta vivê-los com atenção e sem medos.
    Tudo termina se tocando. Não estamos ausentes do coletivo, mesmo quando preservamos recolhimentos e desconfianças.
    abs
    antonio paulo

  • Rafael Cesar disse:

    a solidão, ao meu ver é um estado de incompletude e incompreensão da realidade coletiva e individual, se se acha só num universo de bilhoes de individuos certamente o desejo de se sentir só é mais conveniente do que se relacionar… o medo de não ser correspondido cria um panico social que leva a misantropia, é logico que isso é opinião minha, não tenho embasamento teorico exceto algumas palavras de bauman, enfim o que eu acredito é que nessa cultura de massa e massificante alimentada pelo seculo passado fez surgir uma nova forma de seres humanos; os que se relacionam consigo e somente consigo e que de fato sao incapazes de ver outros seres humanos como seres humanos… o que se explica com adolph hitler e wellington… a desumanização não é um mito definitivamente! é o que eu creio, mas nao cegamente!

  • Rafael

    Nem sempre a solidão é fuga. Pode ser reflexão, vontade de olhar as coisas com mais contemplação. Mas é importante reforçar o social e pensar no coletivo. No individualismo, o mundo termina desandando de vez.
    abs
    antonio paulo

  • Rosário disse:

    Professor,

    A aula de hoje e o texto dialogam e nos botam para pensar. Tenho comungado com a ideia de Agualusa “de que os milagres acontecem a cada segundo. Os melhores costumam ser discretos. Os grandes são secretos.” Falar da solidão pode parecer um despropósito, mas é também um milagre, pois o burburinho parece se impor como regra. A solidão de Auster. A solidão de Pamuk. Distintas e comuns. Ambas leva-nos por cidades encantadoramente diferentes. Elas são ambíguas. Ora, surgem em largas avenidas, ora, em ruas estreitas e arquedas. Criadoras e inventivas elas são históricas e comunicam-se como nossa memória e com nossa afetividade. Impossível ler Pamuk e não se tomar de amores por Istambul. Impossível Ler Auster e ficar imune aos encantamentos de Nova York.

    Rosário

  • Rosário

    A ligação afetiva com a cidade é uma marca de certas narrativas. Elas nos seduzem e nos transportam para outras situações. Isso tem a magia da escrita, com certeza.
    abs
    antonio paulo

  • Antonio Dantas disse:

    A QUESTÃO…

    “O pequeno príncipe, uma vez na Terra, ficou muito surpreso de não ver ninguém. Já receara ter-se enganado de planeta, quando um anel cor de lua remexeu na areia.
    – Boa noite – disse o principezinho.
    – Boa noite – disse a serpente.
    – Em que planeta me encontro? – perguntou o principezinho.
    – Na Terra, na África – respondeu a serpente. (…)
    – Onde estão os homens? – perguntou o principezinho. – A gente se sente um pouco só no deserto.
    – Entre os homens a gente também se sente só – disse a serpente”.

    (…)

    “O pequeno príncipe atravessou o deserto e encontrou apenas uma flor. Uma flor de três pétalas, uma florzinha insignificante…
    – Bom dia – disse o príncipe.
    – Bom dia – disse a flor.
    – Onde estão os homens? – perguntou ele educadamente.
    A flor, um dia, vira passar uma caravana:
    – Os homens? Eu creio que existem seis ou sete. Vi-os faz muito tempo. Mas não se pode nunca saber onde se encontram. O vento os leva. Eles não têm raízes. Eles não gostam das raízes.
    – Adeus – disse o principezinho.
    – Adeus – disse a flor”.

    (…)

    “O pequeno príncipe escalou uma grande montanha. (…). ‘De uma montanha tão alta como esta’, pensava ele, ‘verei todo o planeta e todos os homens… ’ Mas só viu pedras pontudas como agulhas.
    – Bom dia! – disse ele ao léu.
    – Bom dia… bom dia… bom dia… – respondeu o eco.
    – Quem és tu? – perguntou o principezinho.
    – Quem és tu… quem és tu… quem és tu… – respondeu o eco.
    – Sejam meus amigos, eu estou só… – disse ele.
    – Estou só… estou só… estou só… – respondeu o eco.
    ‘Que planeta engraçado!’, pensou então. ‘É completamente seco, pontudo e salgado. E os homens não têm imaginação. Repetem o que a gente diz…”.

    A RESPOSTA…

    “E foi então que apareceu a raposa:
    – Bom dia – disse a raposa.
    – Bom dia – respondeu educadamente o pequeno príncipe que, olhando à sua volta, nada viu. (…)
    – Vem brincar comigo – propôs ele. – Estou tão triste…
    – Eu não posso brincar contigo – disse a raposa. – Não me cativaram ainda.
    – Ah! desculpa – disse o principezinho.
    Mas, após refletir, acrescentou:
    – Que quer dizer ‘cativar’?
    – Tu não és daqui – disse a raposa. – Que procuras?
    – Procuro os homens – disse o pequeno príncipe. – Que quer dizer ‘cativar’? (…).
    – É algo quase sempre esquecido – disse a raposa. – Significa ‘criar laços… ’
    – Criar laços?
    – Exatamente – disse a raposa. Tu não és ainda para mim senão um garoto inteiramente igual a cem mil outros garotos. E eu não tenho necessidade de ti. E tu também não tens necessidade de mim. Não passo a teus olhos de uma raposa igual a cem mil outras raposas. Mas, se tu me cativas, nós teremos necessidade um do outro. Serás para mim único no mundo. E eu serei para ti única no mundo…”

    (…)

    “- Minha vida é monótona. (…)… Mas se tu me cativas, minha vida será como que cheia de sol. Conhecerei um barulho de passos que será diferente dos outros. Os outros passos me fazem entrar debaixo da terra. Os teus me chamarão para fora da toca, como se fosse música. E depois, olha! Vês, lá longe, os campos de trigo? Eu não como pão. O trigo para mim não vale nada. Os campos de trigo não me lembram coisa alguma. E isso é triste! Mas tu tens cabelos dourados. Então, será maravilhoso quando me tiveres cativado. O trigo, que é dourado, fará com que eu me lembre de ti. E eu amarei o barulho do vento no trigo…”

    O SEGREDO…

    “E voltou, então, à raposa:
    – Adeus – disse ele.
    – Adeus – disse a raposa. – Eis o meu segredo. É muito simples: só se vê bem com o coração. O essencial é invisível aos olhos. (…).
    – Os homens esqueceram essa verdade – disse a raposa. – Mas tu não a deves esquecer. Tu te tornas eternamente responsável por aquilo que cativas.”

    Peço desculpas por usar trechos de O Pequeno Príncipe, ao invés de minhas palavras, no comentário do texto, no entanto, as palavras de Exupéry traduzem o meu pensamento com relação ao assunto proposto.
    O Pequeno Príncipe é uma bela história e traz ensinamentos sobre o valor da amizade e dedicação. Mostra-nos como encontrar o amor em pequenas coisas, através de mensagens como: “Cativar é criar laços”, “Só se vê bem com o coração, pois o essencial é invisível aos olhos”, e “Tu te tornas eternamente responsável por aquilo que cativas”.
    É uma obra que nos mostra uma profunda mudança de valores, que ensina como nos equivocamos na avaliação das coisas e das pessoas que nos rodeiam e como esses julgamentos nos levam à solidão. Nós nos entregamos as nossas preocupações diárias e a solicitude pelas nossas vidas, nos tornamos adultos de forma definitiva e esquecemos a criança que mora em cada um de nós.

    Um forte abraço,

    Antonio Dantas

  • Antonio

    Gostei de seus comentários. Colocou o que lhe toca. Esses diálogos são de grande sensibilidade.
    aba
    antonio paulo

  • Juany Nunes disse:

    Como o senhor uma vez já citou esta frase,e certa vez conversando com um amigo ele me disse: ” O inferno são os outros”.
    A solidão é uma alternativa de se encontrar consigo mesmo, as vezes em meio a multidões não encontramos alguém que de fato esteja presente. Os contatos são tão artificiais, líquidos e que de repente nos encontramos sós. Como é transmitida a mensagem pela sociedade que tudo pode ser seu a partir do momento em que vc possui meios financeiros de adquirir, é como se a amizade ou qualquer outro laço afetivo fosse mais um objeto e quando se percebe que está tudo errado o melhor que se tem a fazer é se isolar, é como se a pessoa percebesse que o que tem de se fazer nada mais é do que se trancar mas isso,na minha concepção, tem seus lados positivos porque faz com que você reconheça suas próprias fraquezas e trabalhe a relação que se tem com os outros, é como se fosse a construção de uma “proteção contra os outros”

  • Juany

    A solidão nos traz certos sossegos, mas não podemos deixar de viver com o outro, mesmo que seja difícil. Faz parte da construção da cultura. O isolamento pode tirar nossa enregia de viver.
    abs
    antonio paulo

  • Murilo disse:

    Mesmo fazendo parte de qualquer que seja o vinculo social, o individuo está sujeito a adaptação ao meio. A solidão talvez seja um descanso aos inevitáveis embates contra forças quase sempre superiores. Ou simplesmente sua desistência.
    Só é estar consigo. Com suas reflexões e lembranças. É uma das poucas oportunidades de descansar as mascaras nesse gigantesco palco da vida.

  • Thiago Rogério disse:

    Boa noite!

    Com as necessidades inerentes da humanidade de viver em coletividade, a solidão, pode ser considerada a “reclusão” do indivíduo, encontrando em si melhores maneiras de relacionar-se com o outro. Sem pretenção de fazer da afirmativa acima uma regra geral, a solidão também é importante para a organização social.

    Obviamente, a frase com a qual iniciei este comentário definiria o princípio mais simplório e otimista da solidão.

    Engraçado é perceber como boa parte da nossa sociedade não consegue compreender aqueles que escolhem viver, na maior parte do tempo, em solidão. Predominante entre religiosos altamente espiritualizados, monges,etc.

    Obg,

    Thiago.

  • Thiago

    As necessidades são construídas historicamente. Cada época vive seus sentimentos e suas buscas. A solidão tem formas diferentes, dependendo do momento. É um caminho importante para pensar a autonomia e refletir sobre o mundo.
    abs
    antonio paulo

  • João Paulo Andrade disse:

    Quando existiu tal aspiração? Talvez num ébrio delírio transcrito em forma de código para lembrar a humanidade que sonhar é intrínseco a natureza humana, assim como o egoísmo e outra qualidades se é que podemos classificar todo o lado obscuro da natureza humana como tal. Costumo conversar sozinho com meus pensamentos no silencio da madrugada onde encontro os gritos da noite e todo o barulho de um universo que só minha mente pode interpretar, mas mesmo assim não costumo dar ouvidos a tudo que ouço, pois sou humano e nós temos uma queda por dar ouvido apenas ao que nos convém.

  • ladjane disse:

    Vivemos cercados de pessoas e coisas nesse mundo agitado, mesmo assim quem nunca experimentou a solidão? Estar acompanhado faz parte do cotidiano e estar sozinho também, apesar de muitas vezes nos sentirmos sozinhos mesmo estando cercados de gente.Quantas vezes precisamos compartilhar ideias, mas esse mesmo desejo falta em quem nos cerca?Se é assim, então sinto-me acompanhada quando estou lendo um livro,porque conheço pessoas, lugares e ideias que nunca vi nem compartilhei.Isso Pelo menos é o que percebo.

  • Ladjane

    É uma mulitplicidade de situação de vida. Estamos acompanhados, mas nem sempre ligados no outro. Tudo passa pelo afeto e pela imaginação.
    abs
    antonio paulo

  • Yves Vicent disse:

    Existem muitas pessoas que nao se permitem ter um encontro com sigo mesmas e fogem da solidão desesperadamente com ansia de preencher aquele espaço vazio.
    E distrações existem das mais variadas formas, mas todas compartilham da mesma caracteristica: elas são fulgazes e não completam aquilo que falta…
    Existe pessoas que buscam refugio em outras e criam seres idealizados nos quais julgam estar realizada e a elas se refugiam tal como um naufrago a uma tabua no meio do oceano! Mas isso e só mais uma ilusão, o outro não é o paraíso e logo vem as decepçoes corriqueiras de quem insiste em não ver o que está diante dos olhos!
    Qual será o medo existente de encarar a solidão?
    A solidão traz a auto-analise, faz com que a pessoa veja, mesmo que não queira, seus defeitos, suas falhas e o mais importante suas duvidas e os seus medos.
    As pessoas fogem da solidão talvez porque tenham medo de encontrar-se diante do espelho da reflexão, porque não estão preparadas para serem auto-criticas.
    É claro que exponho uma visão particular de que a solidao permite o auto-descobrimento, por isso considero a solidão um bem precioso… Há casos de pessoas que ainda não conseguem, mesmo que queiram, promover esse encontro… Mas acredito que um dia as pessoas possam eleger a solidão pra esse momento construtivo!

  • Yves

    A solidão é um encontro com os silêncios. Mostra a vida com outras cores, vale praticá-la para conhecer as dimensões mais escondidas do mundo.
    abs
    antonio paulo

  • João

    A solidão é , muitas vezes, uma boa conversa. Ajuda a ir além do que se vê e nos tira de incertezas.
    abs
    antonio paulo

  • Murilo

    A solidão ajuda a perceber a importância da convivência e do respeito pelas diferenças culturais. É importante para autonomia e o diálogo com o mundo, direto e sem máscaras.
    abs
    antonio paulo

 

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