As cores e os olhares, as formas e os tempos

Costumo não desprezar os diálogos com a imaginação. Sei que a sociedade contemporânea explora símbolos e abstrações. No entanto, é importante desviar-se dos lugares comuns. A repetição ensina e, às vezes, idiotiza. É melhor conhecer seu ritmo, para não se afogar no descartável. Sinto na imaginação um lugar de transcendência, de observar o mundo com se estivesse de fora, libertando-se dos muros e do peso do concreto. As diferenças entre o real e a ficção provocam dúvidas, desde que constatamos que as fantasias atiçam as ações de vida e nos remete para refazer os tempos e as memórias. A escuridão existe para descansar a luz e aquietar os olhos. Não significa apagamento de criatividade.

Sigo os caminhos de Italo Calvino: Tudo o que pode ser imaginado pode ser sonhado, mas mesmo o mais inesperado dos sonhos é um quebra-cabeça que esconde um desejo, ou então o seu contrário, um medo. As travessias não são, necessariamente, visíveis. Daí, a especulação sobre as relações e as possibilidades de remontá-las. Pense, também, nas formas e seus entrelaçamentos com as cores. Como Picasso contemplava seus quadros depois de prontos? Como os desenhava nas suas viagens em busca de quebrar padrões e inverter modelos? Não se limite , apenas, às obras dos artistas. Um olhar aceso para o mundo redefine, muitas vezes, os cercos da melancolia. Quem não se contagia com o azul firme espalhado no horizonte ? Os sentimentos podem misturar-se e as linguagens afirmarem enganos e certezas.A multiplicidade do humano foge de destinos determinados, indicam que a leveza, também, compõe o cosmo.

O sonho e o desejo acompanham as aventuras da vida, mas ameaçam permanência das configurações conhecidas. Existem repentinas mudanças nas formas de comprender o ritmo das situações. Por isso, ambiguidade nunca se vai. Ela assusta, pois expõe as fragilidades. Ítalo Calvino sintetiza: Às vezes o espelho aumenta o valor das coisas, às vezes anula. Nem tudo o que parece valer acima do espelho resiste a si próprio refletido no espelho. As palavras dão conta da sinuosidade, porém a dificuldade de vivê-las é constante. Construímos as representações, riscamos as imagens prediletas e nem conseguimos, aflitos, fotografar o que dizia o  coração quando se feriu com as últimas dores. Os deslocamentos nos alucinam nas andanças do inesperado. As vacilações trazem suspeitas sobre a existência de  navegações sem tempestades.

Cada olhar atravessa paisagens diferentes da vida. Escorregamos. Confundimos. Tocamos em semelhanças. Estranhamos. Não sabemos, contudo, o que nos espera. Não há cálculos espertos e seguros que consolidem o território da eternidade. O segundo, que está sendo vivivo, nem imagina o começo de outro segundo que se avizinha. As profecias são tentativas de aprisionar o sentido dos juízos finais. Escondem medos subterrâneos e antigos. A busca da palavra mágica não terminou. Talvez, haja uma única forma ou um único tempo. As fragmentações facilitam compreensões, porque se envolvem com pedaços e desdenham a totalidade. Picasso fazia suas pinturas, sem saber quando deixaria de inventar e inventar-se. O ânimo move as energias. O tempo cobre a forma dos seus desejos, quando a arquitetura do labirinto se reinventa.

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8 Comments »

 
  • Gleidson Lins disse:

    Sonhos e desejos: às vezes próximos, palpáveis, às vezes distantes, utópicos, mas sempre habitando as incertezas do futuro.
    Com os dias se somando à vida, as sensações esperançosas do porvir vão se alterando, mesclando-se e buscando alentos para que a caminhada continue. Buscamos objetivos bruxuleantes que fogem de nós quando nos aproximamos. E sequer sabemos o que virá no momento seguinte.

    Abs,
    Gleidson Lins

  • Gleidson

    Não controle seguro sobre o tempo. Surpresas acontecem e , muitas vezes, trazem bons caminhos.
    abs
    antonio paulo

  • Ricardo Wanderley disse:

    Concordo com o senhor quando cita Italo Calvino. E realmente acredito que tudo que sonhamos, e as vezes imaginamos são reflexos dos nossos desejos. Principalmente aqueles desejos mais íntimos do nosso ser. Fico me perguntando, será que os sonhos e a imaginação inspiram a vida, ou a vida inspira os sonhos e as imaginações. Tenho tendência a concordar com as duas opções. O que o senhor acredita?

  • Ricardo

    Há um diálogo entre o real e o imaginário que evita a mesmice. A vida precisa de invenção e ousadia.
    abs
    antonio paulo

  • Paulo Marcelo mello disse:

    As vezes imaginamos sentidos a frases que quando foram
    produzidas por seu autores não tinham aquela função.
    Realmente o poder imaginativo do ser humano é um veículo
    que supera a mesmice cotidiana.

  • João Paulo disse:

    Isto me lembra o pensamento complexo. Lidamos diretamente com nossas crenças, ideias, com a representação do real, nunca com o próprio. As cegueiras das quais Morin fala, nos alerta para isto. Pra falar a verdade, ele atenta para as cegueiras. É preciso autocrítica, tradução e reconstrução desse real. Com a imaginação suscitada pela arte não é diferente, ela é integrante desse processo de racionalidade, que difere para a racionalização, pois o primeiro é dialógico, aberto e autocrítico.

  • João

    Tem razão. O mundo é compleo, não dá para decifrá-lo, mas gostamos de mergulhar nas suas inquietações. É bom para quem gostar de história.
    abs
    antonio paulo

  • Paulo

    A imiginação é , muitas vezes, um sossego. Realmente, mexe com a mesmice e traz outras dimensões da vida.
    abs
    antonio paulo

 

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