As costuras e os avessos do facebook: esconderijos virtuais

A sociedade acelera sua comunicação. Fala com o mundo, sinto uma proximidade que cerca cada um. Mas nem tudo amplia o afeto. Muita tecnologia torna a proximidade duvidosa. Lembro-me das cartas. Leitura longa, cheia de interrupções com histórias tocantes. Era animador esperar, abrir o envelope, olhar as letras e ler as aventuras ou lamentos. Hoje, o facebook dispara informações numa quantidade incomparável. Há entrevistas políticas, filmagens do Congresso, análises de sentimento, confissões de tristeza, amores declarados, fingimentos, arrogâncias. Tudo numa fração de segundos. Rápido, porém, muitas vezes, devastador, colaborando para movimentar a solidão ou desacreditar no mundo.

A questão não é a multiplicidade. Temos que fazer escolhas, elaborar reflexões, agitar a esperteza. Nem toda curtição é verdadeira e os comentário podem abalar o emocional. Os debates estão acirrados, portanto há caminho aberto para provocações maliciosas. Há quem compartilhe, busque solidariedade. A confusão não deixa de existir, porque a agilidade é um dom. Quem escapa do equívoco? Ele destrói imagens, cria insatisfações, julga personalidades. Nem  temos tempo para despertar a memória e corremos para digitar alguma. O facebook não simpatiza com espaços vazios. Representa salvações evangélicas ou promessas dos senhores das profecias mercantilizadas.

Lá estão Moro, Neymar, Lula, Renan, Chico, todos famosos e metidos em controvérsias. No entanto, não faltam vídeos espetaculares, montagens e fotografias de anônimos. Conhecemos ações que nos intimidam. Há ternuras, bolos de aniversários, assaltos ao bom gosto, detalhes de corrupções, divagações filosóficas. Amigos reaparecem  com acenos de reencontros. Cabem nostalgias, desejo de voltar a ser menino e  pensar nos namoros da adolescência. A quantidade desafia, desenha cartografias das riquezas, da exploração dos refugiados, da separação dos artistas globais, da nova paixão de Roberto Carlos, das sínteses pesquisadas na obra de Foucault. O amém profano não se vai, resiste.

Costuras, bordados, avessos. O mundo girando numa velocidade espantosa que nem Deus esperava. Sua invenção bombou, com dizem. Criou uma ser que não se acomoda. apesar da incompletude e o desafia. A rebeldia também se manifesta. Não faltam lágrimas, corpos nus, acidentes cotidianos, discursos de cientistas considerados geniais. Uma navegação sem porto, com embarcações soltas com seduções e fantasias. Nada de assustador ou anúncio de transformações que tragam serenidades, diálogos, afetos. As pessoas, hoje, inventam novos altares e orações. As cabeças baixas se divertem com celulares, para enganar a melancolia. Soltam remorsos antigos.

A história continua e formas diferente se apresentam. Muitas ruínas mostram mudanças onde existem continuidades, dinamitam o passado como se o futuro trouxesse o paraíso. Há feitiço, manipulações. Que tem a convicção que a estrada é larga e não há ruídos? Conforma-se com a época que se vive é jogada dos dominante. Desconfiar do descartável não significa colocar no lixo todos os valores da modernidade. O desgaste é visível. As linguagens perdem a poética em busca de exatidões. A morte é ocultada em cemitério distantes. A tragédia está ameaçada pela farsa, talvez seja a chegada do juízo final. Não sei me livrar das suspeições. O mundo dos julgamentos é opressivo, sobretudo quando se enche de acrobacias.

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1 Comment »

 
  • Virginia disse:

    Adorei o ” A tragédia está ameaçada pela farsa”! Parabéns pelo belo texto.

 

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