As criações e as criaturas: o domingo e seus feitiços

 

O futebol domina uma parte dos programas de televisão. Possui uma audiência poderosa. Acontece quase todo dia, fomenta negócios e divertimentos. O domingo era, antes, seu leito privilegiado. Houve muitas mudanças, sobretudo no império dos meios de comunicação. Quem queria ver o jogo, tinha que ir ao campo. As torcidas se misturavam nas suas paixões e se organizavam sem a hostilidade, tão comum, na época atual.

Todos desejavam vencer, mas sem a vontade desmesurada que persegue as competições do tempo que vivemos. Há, no lúdico, o exercício da diferença e laços fortes com as aventuras da vida. Nada de linha retas, monótonas, mas muitas curvas que desmancham certezas precipitadas. Assim, é o futebol, antes mais tímido, contudo sempre amado pelas multidões. Por isso, seu espaço aumentou. Salário altos, transferências, migrações constantes. O mundo respira instabilidades.

O domingo tem afinidade grande com o futebol. Estamos chegando nos derradeiros momentos do ano e calendário passa. A homogeneidade da burocracia conta os dias com muita atenção. A celebração das festas tenta quebrar a mesmice, porém fica o gosto dos presentes apressados e superficiais. Quem manda são as formalidades. O futebol se recolhe. Busca férias, embora haja promoções de encontros entre veteranos ou peladas entre os chamados profissionais. Fazem parte do contexto, não dá para desprezá-los, mesmo com a  agitação  das ruas e do trânsito.

Dizem que Deus descansou no último dia, depois da criação. Não acredito muito nessa história. Com sua onipotência, acho que assistiu a uma boa partida entre o Santos, de Pelé, e o Botafogo, de Didi. Divertiu-se e inventou a arte. Sabe de tudo por antecipação, portanto se delicia com as aventuras mais cativantes. É claro que não perderia sua eternidade para ver o Brasileirão, na sua mais recente edição. Garrincha, Zito, Maradona, Quarentinha, Djalma Santos, Ademir da Guia e, tantos outros, merecem memórias infinitas. Deus não brinca com sua onisciência. Conjuga todos os verbos e afirma a beleza de todas as línguas.

A fantasia namora com a preguiça. A imaginação não se esgota, quando a contemplação nos envolve. Criar traz leveza, desfaz a angústia da incompletude. Posso pensar num mundo em que todos os domingos sejam ensolarados, que o azul é a cor das  asas de todos os beija-flores. O feitiço da vida não permanece nos cofres das bolsas de valores. Ele reina na teimosia de negar a ordem. Não que ela não tenha suas virtudes. É preciso  impedi-la, de ser inoportuna.

O imginário é o território da expansão, das narrativas com ritmo e da poética mais grata das palavras. Mesmo desconfiando que a história não tem sentido, não custa contar o que existiu . Os acordos entre a mentira e a verdade se estabelecem, enganando as fronteiras. Ontem, a neve vestia a paisagem de branco, hoje o sol flutua sobre o verde. Tudo é possível, quando esquecemos a objetividade seca e mergulhamos nos atalhos, como os personagens de Paul Auster. Que o tempo se atrapalhe com suas tergiversações! Resta profetizar que, para Deus, a eternidade é vadia, mas útil.

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2 Comments »

 
  • Daniel Silva disse:

    Antonio,

    Como o senhor mesmo fala, algumas coisas se ressignificam. Ir à missa não é mais ir à missa somente… Tem o shopping, tem o clube..

    E tem o futebol… O pior é que, neste momento, o futebol nacional está na entressafra, ou seja… estamos sem missa…

    Quem cuidará da nossa alma religiosa?

    Um abraço.

  • Daniel

    A pressa em mudar mexe muito com os nossos sentimentos. Isso é uma marca que cria muita inquietação, em todos os significados da cultura.
    abs
    antonio paulo

 

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