França e Brasil: a política desfia profecias

As eleições trazem, sempre, expectativas. Na época das anunciadas crises, o trapézio da luta política faz voos inesperados. Na França, os primeiros resultados deixaram incertezas e suspeitas na atmosfera. Ressurgem, com fora, atitudes de extrema-direita que tanto assombram o mundo. Sarkozy não consegue definir seu caminho, procurando expandir o oportunismo da sua estratégia vacilante e os socialistas não visualizam segurança na votação do segundo turno. Reacendem-se preconceitos contra os imigrantes e lembranças fascistas assanham o conservadorismo. O problema da convivência com as diferenças culturais não se vai. Sacralizam-se tradições no país de Descartes e da revolução burguesa.

A história francesa tem marcas emblemáticas na memória política do Ocidente. Seus movimentos servem de alerta para o mundo, estimulam exemplos, inquietações. Quem não se recorda do maio de 1968? Se , no século XVIII, as animações progressistas se estendiam nos discursos iluministas, os estudantes e os jovens, no século XX, criticavam a burocracia e exigiam imaginação. Outras trilhas para uma sociedade cheia de formalidades, mergulhada na competição. Foi um abalo que, ainda, mexe com sonhos e mostra as lacunas do capitalismo. Discutiu-se felicidade e não somente  apatias no comportamento. Os espaços da transgressão reapareciam para balançar as estruturas carcomidas.

A política tem difícil definição. Muda, reanima nostalgias, pressiona quem desobedece, confunde. No Brasil, outras situações se configuram. Dilma mantém uma popularidade impressionante, índices inimagináveis no começo do seu governo. Na mesma pesquisa, Lula é apontado, pelos entrevistados, como seu sucessor favorito. Um diálogo curioso que a opinião pública promove entre as escolhas. Difícil entender. Por que não Dilma Rousseff por mais um mandato?  O que move a volta da Lula ao poder? Mais uma vez, o carisma amplia sua magia e não há renovações que derrubem a sequência petista? Até que ponto as alianças políticas desfazem perspectivas éticas e misturam concepções de mundo?

A lógica sofre prejuízos. A complexidade social crescente desmancha valores. A tão proclamada globalização não significa clareza  ou estreitamento de ordens que poderiam servir a uma reformulação nos possíveis arranjos democráticos. A política continua colada aos interesses econômicos. Suas parcerias são visíveis. A França hesita, receia escorregar numa crise mais profunda. Não há condições de conversar com sua memória, de remontar vivências e trazer recordações dos tempos da invasão nazista? Por onde anda a história, para que servem as perdas e as solidariedades na busca de alternativas? Por que a urgência e o apagar das reflexões?

O Brasil lança-se uma aventura, aparentemente, promissora. É o que ressaltam os otimistas. Mas há denúncias constantes de corrupção e disputas intensas nos partidos que detêm a hegemonia. A melhoria do nível de consumo é atraente, contudo não engana. Não adiantam máquinas fabulosas e objetos sedutores se movendo, com frágeis sustentações na educação, saúde e segurança. O capitalismo não tímido, nem renega o pragmatismo. Daí, o elogio aos planejamentos, com manipulações para afirmar o equilíbrio das moedas. Para que articular técnicas, se a alegria é, apenas, um disfarce para celebrar as conquistas no trabalho com jornadas sufocantes? O utilitarismo dá as cartas, aqui e na França. Não seria esse o espelho da globalização?

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