As curvas do eu

Não se ligue apenas nas exterioridades. Há momentos em que o brilho dos espetáculos fabricados apagam o diálogo com as singularidades de cada um. O descartável atravessa a sociedade e escolhe suas aventuras. Vende-se e troca-se, porém não se escuta que há ruídos interiores, conversas nostálgicas e lembranças de longos encontros no passado remoto. Quando o mundo das mercadorias se torna soberano parece que somos espelhos de objetos. Há descuidos e omissões, não entramos nas curvas do eu.

Fala-se em subjetividade, nas possibilidades de se construir imaginários. O mundo se enche de jogos que referenciam a superficialidade. A política deixou de ser o cultivo das relações solidárias ou talvez nunca tenha sido.As sociabilidades navegam, inventam aproximações, não se afastam de intrigas. Não se observa que as complexidades mostram que as desconfianças se misturam com as incertezas.Solta-se o trapézio do sonho como se fosse uma salvação. No entanto, as simulações não se vão e a sociedade se alimenta de olhares coisificados.

As curvas do eu não são vistas. Somos, muitas vezes, desconhecidos de nós mesmos. Há pressa para definir planejamentos. Quem se delicia com eles? Quem se lança nas travessuras da solidão para tentar decifrar o ritmo do desemparo cotidiano? Se tudo não passa de uma linha reta, a história é mudez e calendário de velhos acontecimentos. É na dimensão curva, no seu desequilíbrio, que as reinvenções devem ser atiçadas.

A modernidade trouxe o feitiço do progresso, afastou deuses de seus templos, contemplou a razão como alternativa para refazer valores e distrair agonias. Hoje, há desencantos que assumem lugares massificados e fecham as portas da ousadia. A mesmice veste corações e mentes, os medos negam os escorregões. Se a incompletude nos acompanha, a cultura está longe de ser linear. Há perdas, descontroles, pesadelos. Cada palavra consolida um escrita que tem vários significados. Desenham curvas e aposta na superação do homogêneo permanente.

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2 Comments »

 
  • Rivelynno Lins disse:

    …é, estamos na vida e nela coexistimos com a ordem das coisas, a individualidade e a coletividade das pessoas, seja ao nosso redor, seja ao redor do mundo cada vez mais globalizado. E assim, multiplicam-se as explicação sobre o cotidiano que nos cerca, sua história e seus mitos fundadores, procura-se explicações para tudo e quando não se encontra atribui-se ao divino os seus mistérios. O mundo não é previsível, as disputas pelo poder muito menos. Hoje, vivemos no Brasil algo novo, inédito, o poder constituído pelas igrejas evangélicas cresce assustadoramente, ele chega a gestão política a passos largos. O conhecimento de coisas já resolvidas pela ciência, pela história é assustadoramente apagado pela ignorância religiosa. Esta é manipulada e faz-se eleger pessoas intelectualmente medíocres, mas que ganharam cargos legislativos e executivos em todo o território nacional. As explicações sobre este fenômeno vem do exército formado pelas igrejas evangélicas e de todo o seu poder de persuasão nos dias de hoje. É a ciência da história mais uma vez mostrando as descontinuidades de uma ideia de progresso que não se manifesta. É o mistério dos caminhos curvos, das curvas, como propõe o texto, onde não se sabe o que se espera durante o caminhar da vida…

  • Rivelyno

    Continua assegurando a boa crítica. Isso vale muito.
    abs
    antonio

 

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