As descontinuidades e as confusas temporalidades

Podem insistir. Contar os dias e as noites usando metodologias diversas. As épocas mudam, como também as reflexões que indicam a passagem da vida. O corpo dá sinais, transforma-se, parece viajar. O tamanho do caminho é um mistério? O que fica nos instigando são as descontinuidades. Quantas aparecerão? Há mesmo descontroles ou desmontagens que refazem os projetos das existências de cada um? Para que a história? Por que a transgressão flutuando no estabelecimentos das ordens? O que Descartes possui que Castoriadis não concorda na sua transparência mais profunda? Tudo se assemelha? O tédio é uma configuração das sociedades modernas ou arrasta-se pelo cotidiano?

Portanto, as perguntas não se exaurem. No entanto, as nossas relações com o tempo não podem ser abandonadas. Elas navegam por abstrações e por concretudes. As medidas são complexas. Temos que compreendê-las, para não esquecer que as permanências possuem suas máscaras. Pensar num mundo sem preconceitos é um desejo que cativa muita gente. Nem todos apostam na geometria do bem. As desconfianças não desapareceram. O pessimismo consegue sobreviver, apesar dos sorrisos de muitos. As culturas entrelaçam-se, porém as diferenças se mantêm. Por isso, as curvas e a sinuosidades, a persistência dos mitos, mesmo que as tecnolgias celebrem a força da ciência.

Acabaram as animações efêmeras e há choques com dores que retomam seus espaços. O importante é que os significados se redesenhem. Os amores se vão e os sentimentos se misturam. Buscamos muita coisa. Acreditamos em deuses, orações, magias, discursos. Muitas vezes, estamos tão embriagados pelas multiplicidades que desistimos de formular respostas. Ficamos, como crianças, descobrindo o conteúdo de cada gesto e a extensão de cada brincadeira. Comemoramos nascimentos, descuidados com os desgates das imagens registradas nos espelhos. A descontinuidade representa velocidade ou preguiça de reinventar calendários sem grandes acontecimentos? Por que essa insegurança com o tempo?

A incompletude dialoga  com a relatividade. Alguém desconhece a fragilidade? Mas nada tem uma clareza que nos aquiete. As travessuras da vida não nos deixa garantia. Confundir-se não é uma falha incomum. Quem sabe quando um sentimento se finda? Vamos atrás das felicidades, inauguramos datas para confirmá-las, no entanto o insperado nega a  linearidade. Podem insistir e traçar as fronteiras do paraíso. Cruzamos com inúmeros conceitos de liberdade e as culturas não admitem regras fixas. Tudo isso serve para aumentar o fôlego e avivar as possibilidades.  Na intimidade, desconversarmos limites para não legitimar turbulências.

Pois é. As histórias seguem, mesmo para quem mergulha nas escatologias. Há escorregões, mortes antecipadas, acidentes fatais. A quantidade de invenções se acumula. Não apenas nas virtualidades das máquinas. Fabricamos sonhos, desfiamos mantos, redefinimos concepções de mundo. Essa confusa existência não é somente desassosego. Ela parece um parque de diversões ou jogo de videogame? Quem se acha senhor das respostas, quem se aborrece com as reflexões? Narrar a vida traz o desfile das complexidades. Cansa, porém, arquitetá-la sem bordar as palavras e observar a nudez dos desenganos constantes. Serão as  lembranças das correntes de Prometeu?

 

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4 Comments »

 
  • Canto da Boca disse:

    Parece que somos reféns das inquietações, das perguntas e de toda sorte de incertezas, Antonio Paulo; parece que só isso nos resta, parece que nem mesmo a história nos dará todas as respostas.
    E com relação ao tempo cronológico e para quem acredita que tudo acontece apenas aqui, nessa dimensão, também somos reféns dele, qualquer que seja o tempo, temos o nosso limite, o prazo de validade (recordo agora o filme Blade Runner, o Caçador de Andróides, nas suas aulas no mestrado em História), e temos que viver tudo aqui e agora, a pressa, a falta de tempo, um bem, um valor & uma preciosidade, artigo de luxo, a intensidade da pós-modernidade. A correria é uma mania ou uma necessidade? A rapidez diante de tudo, a velocidade gerindo o mundo, as relações, e todas as construções… O mundo e seus excessos de mundos. E quiçá seja uma “maldição”, nos regeneramos diante dos sonhos e dos desejos (o nosso fígado), e nunca nada nos satisfará? Ou talvez sonhar, seja o que nos aprisione? O texto só nos leva à mais reflexões (e angústias), e por isso mesmo, grandioso, como os demais aos quais estamos habituados a ter/ler de ti. Só nos resta viver, com todas as ambiguidades e inquietações, e me fez lembrar de uma frase da Lygia Fagundes Telles, “já que é preciso aceitar a vida, que seja então corajosamente”.

    Que texto provocador, Antonio Paulo.

    Abraço!

  • Valda
    Muita coisa no mundo, com idas e vindas que não sossegam. Temos que pensá-las e senti-las. Mas há quem não se ligue. A multiplicidade é uma questão muito profundo. Não garante saídas.
    abraço
    antonio

  • Franz disse:

    Antônio, quero fazer uma doação de livros. Gostaria de saber como faço caso queira doá-los a UFPE. Conheces algumas outras instituições que podes me aconselhar, para que tenha a opção de escolha?
    abs

  • Franz
    Sugiro a Biblioteca Pública do Estado.Não sei o procedimento. Acho bom você ir ao local. É melhor.
    abs
    antonio paulo

 

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