As dissonâncias, as histórias e os historiadores

Nunca deixei de observar a relação da escrita com o ritmo da música. Elas entrelaçam-se. Não sei se é uma paixão que move o escondido inconsciente, mas a sigo, sem vacilação. O compromisso com a palavra não é, apenas, de testemunhar a construção de verdades. Há a dimensão das formas, as viagens estéticas, as surpresas da memória. O ofício do historiador tem, portanto, um fôlego amplo. Não pode ficar restrito aos segredos dos acervos, nem medido pela quantidade documentos que reúne nas suas aventuras de pesquisa. Escrever é um diálogo com o mundo. Encarcerá-lo nas regras acadêmicas é um pecado original, com todo peso secular da expressão. O texto não é neutro, compõe seduções, comunica experiências. Anima a reflexão e conecta as interioridades.

Sempre me preocupei com os significados das histórias. Nós a vivemos e a narramos. Não é algo estranho ao cotidiano. Ninguém escapa de contar suas andanças, de apelar para os deuses, de enganar as desilusões, de armar seus espaços de fuga e utopia. Os malabarismos são intensos e criativos. Na formação do pensamento, valem as lembranças do que foi pensado e as inquietações que provocam. Há mudanças nos paradigmas, porém as permanências acenam com seus vestígios. Todos contam sua história, no entanto existem hierarquias que definem poderes. Muitas vezes, uma bela narrativa perde seu lugar porque não se envolve com os privilégios dos considerados mais sábios. A sociedade está dividida. Não se trata, exclusivamente, de eleições econômicas e desigualdades sociais. O capitalismo não se aquieta e acredita em milagres.

Os ritmos contêm suas dissonâncias. O ofício do historiador não foge das danças, dos compassos, da multiplicidade. O mais difícil é a compreensão das travessias da vida. Por que tantas histórias e a necessidade de colecioná-las ou guardá-las com cuidados especiais ? Penso que a história é a construção das possibilidades. A questão das suas origens, nem ouso tocá-la. Há mistérios e crenças que se misturam. Estamos no mundo, arquitetamos fantasias, projetamos sonhos, porém sinto certa gratuidade que desenha uma atmosfera, praticamente, indefinível. Para isso, buscamos respostas e cultivamos raciocínios. Sobram dúvidas e incômodos. Opto por evitar especulações,embora me encante com o fogo das narrativas e das invenções humanas.

Se tudo se reveste do absurdo, de existências que caminham por dentro de labirintos, não há como esquecer que o caos é admitido, mas também procuramos um sentido para o que fazemos. Ele é efêmero. Possui complexidades, reconfigura sossegos e nostalgias. O sentido ou os sentidos são sinalizações. Indicam inquietudes, voos dos tempos, desejos de não perder o ânimo. Fabricamos as sociabilidades, mutantes para afirmar a história numa dimensão coletiva. Precisamos dos outros. Eles afinam ou se contrapõem as nossas mais sofisticadas sinfonias ou aos nossos boleros mais sensuais. A navegação é turbulenta. A história possui entradas e saídas, adormece com pesadelos ou se distrai com conquistas, aparentemente, definitivas. Há jogos, pausas, dramas. Não há falta de enredos, não interessa que pareçam ficções. Construir transparências diante de tantas magias desafia e alimenta as aventuras.

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