As distrações filosóficas: o futebol no fogo da dúvida

Construir um blog passa por muitas reflexões. Se elegemos o imediato, a urgência, as palavras fugidias, podemos mergulhar num efêmero improdutivo. Terminamos por produzir um texto com informações variadas, mas de pouca intimidade com os questionamentos. Um texto ligeiro e descartável, como quase tudo que rege a sociedade de consumo.

Minha paixão , pelo futebol, vem de longe, como também minhas relações com a literatura. Estive, sempre, atento às linguagens, acompanhando as suas transformações. Não adianta ficar adormecido em tradições. É preciso redefini-las ou mesmo desencontrar-se , com os paradigmas dominantes, para não firmar lugares comuns.

A minha iniciativa de entrar, na atmosfera do blog,  levou-me a dúvidas. Retomei leituras de cronistas como Armando Nogueira, João Saldanha, Paulo Mendes Campos e , dos recentes, mantive admiração com os escritos de Tostão. Não queria, apenas, trabalhar com a superfície do futebol. Busco entrelaçá-lo com as convivências da cultura.

Foi uma opção feita com diálogos com Marcelo, meu filho mais novo. Ele é senhor das artimanhas do computador, conhece as expressões do mundo virtual. Mostra sabedoria. O importante é que nos aproximamos muito. Uma bela troca de experiências entre quem tem 58 anos com quem está chegando aos 15 anos. O afeto é uma invenção gostosa e fundamental.

Nesse aprendizado, consegui situar-me em muitas coisas. Uma delas é que, apesar do discurso da pressa, o mundo necessita de contemplar, para não abandonar a paciência e a profundidade. Muita informação gera um culto ao acúmulo e à perda crescente de qualidade. As mentes e os corações se esvaziam, gradativamente.

Daí, segui reformulando reflexões, não me deixando escravizar pelas novidades, tirando o futebol de muitas banalizações. Ele cria, dança, alegra. Não deve ser resumido aos milhões das negociações ou às fofocas sobre as noitadas dos jogadores. Ultrapassa visões individualistas.

Discutir, debater, falar das astúcias e dos malabarismos, da arte que marca os fazeres humanos abrem espaços para curtir outras perpectivas que o futebol nos coloca. Articular o texto traz  fogo para não celebrar, com excessos, o descartável e a soberania do agora.

Assim, o calor da dúvida anima a vida e sepulta verdades terminais. O silêncio possui significações, mas o grito também ajuda a mover certezas. A velocidade tem um lugar especial no mundo atual. Não temos, porém, obrigação de repetir, de ser o eco. É saudável arriscar e acreditar em tapetes mágicos.

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1 Comment »

 
  • marcio lucena disse:

    Antonio,

    vou usar esse texto para divulgar aos alunos um ‘blog heterodoxo’ sobre futebol (no bom sentido, é claro)

    marcio lucena

 

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