As andanças do tempo, os significados dos ritmos

Dividir o tempo faz parte da vida. Exige que se estabeleça diferenças e medidas. Há mudanças, nem sempre conseguimos compreendê-las. A homogeneidade tem seu lugar na cultura, mas sofre abalos constantes e usa máscaras. Tudo sempre igual não responde aos movimentos do mundo. Somos muitos. As emoções gostam de agitações. As relações não mantêm seus significados, pois não se isolam das transformações gerais. Portanto, periodizamos tempos, escolhemos datas, marcamos celebrações, desfazemos lembranças, exaltamos conquistas. Alegrias, decepções, amarguras, famas compõem o cotidiano. As perturbações não cessam, as calmarias são raras. As  ilhas foram vendidas pelas especulações imobiliárias.

O mito do progresso atingiu a modernidade. Hoje, ele se encontra combalido. Nomeamos a época que vivemos  e a hieraquia evolucionista não convence. Nas andanças individuais também a simultaneidade merece atenção. Não há como se desfazer da memória. A história está aberta a possibilidades. Elas são construídas com diálogos entre passado e presente, com sonhos, projeções, esperanças. As nostalgias aparecem, socialmente, criando modas e comportamento. O vivido se balança, não está morto, assanha saudades. Quando se fala em pós-modernidade não se exalta avanços ou recuos. Houve metamorfoses, mas muita coisa permanece. Não é, apenas, um conceito abstrato e vazio. Cabem observações, análises. Os preconceitos atrapalham, desfiguram certas sutilezas importantes.

As guerras não saem da história. Tomam outros rumos. Não estamos nos tempos de Napoleão, nem de Mussolini. O pós-moderno se entrelaça com uma cultura com tecnologia crescente, com ansiedades de renovação. Pode contribuir para melhorias nas relações sociais. No entanto, euforias distorcem. Não faltam paradoxos e desconcertos. Se a tecnologia salva, funda também mecanismos de poder. Ela consolida manobras do capitalismo, aquece o mercado consumidor, configura monopólios internacionais. O novo não representa vitórias generosas da inteligência. Traz disputas e lugares de poderes privilegiados. Muitas vezes, é descartável e inútil.

Sempre se repete que a cultura é complexa. Sua multiplicidade inventa campos de estudos, remexe com os saberes. Não há unanimidades. Pensemos nos costumes que existem na França e nos que existem na China. Como avaliá-los? Portanto, as diferenças devem ser destacadas, nunca no sentido de firmar civilizações ideais e exemplares. As violências e a desigualdades não moram, apenas, nos países pobres. As surpresas quebram modelos, mostram a força da dimensão trágica no fazer humano. As divisões no tempo nos ajudam a ajustar trilhas, porém não desejam calendários redentores. Tudo possui uma fragilidade que passa pelos instantes e acontecimentos.

Portanto, é exagerado desejar um único ritmo como sinal de encontro com a completude. Isto é uma ilusão. Por que ver, apenas, uma única cor ou um único sentimento? Recordemo-nos de Eduardo Galeano: Solto-me do abraço saio ás ruas. No céu, já clareando, desenha-se, finita, a lua. A lua tem duas noites de idade. Eu, uma. Belas imagens que nos dizem dos contrapontos e seus significados. É difícil nadar nos oceanos turbulentos. É fácil traçar resumos, se envolver com mesmices, atraído pelo conformismo. Quando fabricamos nossas próprias embarcações a autonomia nos estimula. Nada se faz sem o toque do outro. A solidariedade é ânimo e não desperdício.

You can follow any responses to this entry through the RSS 2.0 feed. You can leave a response, or trackback from your own site.

2 Comments »

 
 

Deixe uma resposta

XHTML: You can use these tags: <a href="" title=""> <abbr title=""> <acronym title=""> <b> <blockquote cite=""> <cite> <code> <del datetime=""> <em> <i> <q cite=""> <s> <strike> <strong>