As dores do mundo, as ilusões das drogas

Assisti a uma reportagem que me trouxe outros dados sobre o consumo de drogas. É um assunto que ocupa a contemporaneidade, pois consegue destruir culturas e acelerar o desfazer de valores. Suas dimensões internacionais amedrontam, mais ainda, os governos e angustia as famílias. É ponto de desequilíbrio da afetividade. As cenas que vi da cracolândia paulista são infernais. Numa cidade, cheia de contrapontos, o tráfico circula com uma desenvoltura inacreditável. Não se trata de esconderijos, de quartos trancados. Nas ruas, as pessoas passam fumando, totalmente entregue aos seus desacertos e o poder público perplexo, sem saídas.

A geometria dos labirintos é, sempre, dominante quando aparecem a dificuldades e a sociedade se sente amarrada às contradições. Não pense que a droga é uma novidade, mas não esqueça que estamos no século XXI, com as turbulências tecnológicas em ação. O labirinto da droga é extenso, com sinuosidades e paredes toscas. A grana move interesses. Corrompe. Nem todos se chocam com a dependência, quase fatal, das fantasias efêmeras e das torturas da abstinência. Há quem use seu poder para aprimorar laboratórios fabricantes da mercadoria preciosa e vil. São seis milhões de consumidores.

As dores do mundo não surgiram com as aventuras do capitalismo e os descuidos das religiões. A incompletude nos leva a amarguras. Inventamos objetos, sonhos, jogos, artes para tentar remediar os desconfortos. Há momentos de sossego, nem tudo é sufoco perene. A complexidade social se multiplica com o aumento da população. Formulam-se novas questões. Aparecem doenças desconhecidas, as cidades enfrentam o caos cotidiano. Portanto, muitos buscam alívios, desvios dos abismos e desejam conquistar territórios de tranquilidade. No entanto, a ilusões podem aprofundar as dores e trazer armadilhas.

 O mergulho no mundo da droga nos mostra que o desencontro é avassalador.As afirmações freudianas são importante para observamos as tensões dos limites. A vida não corre solta, com paraísos em cada esquina. O desprazer acompanha e atrapalha nossos planos. Tudo requer um olhar atento, um entrelaçamento com o outro, uma prática de sociabilidades que mudam e desafiam. Não adianta segurar as tradições e ou achar salvações em crenças eternas. Todos se abalam, pois as idas e vindas da cultura não se enchem, apenas, de promessas de felicidades, mas derrubam alegrias e desnudam egoísmos. As navegações de Ulisses foram feitas por mares de ambiguidades. Nós também temos mistérios que não se esclarecem, violências que não abandonam as relações.

As portas fechadas da vida não configuram que o desespero é o sinal mais visível do futuro. Há espaços de recomeço, a história não é um sinfonia de um só movimento. O que incomoda é que a quantidade ganha elogios e a qualidade é esquecida. Não podemos negar que a diversidade revela possibilidades de encontrar as chaves. A existência de muitos caminhos nem sempre assegura a reinvenção ou redesenha os mapas desfigurados. Quando se fala do outro, os discursos da competição se atiçam e as disputas não desaparecem. Freud pensou o sentimento. O problema da droga não será solucionado sem que as relações afetivas sejam redefinidas.

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8 Comments »

 
  • Angélica de Paula disse:

    Antônio Paulo,

    o problemas das drogas, acredito eu, só será resolvido quando deixar de ser tratado como caso de polícia para ser encarado como problema de saude publica. Ter 6 milhoes de pessoas usuarias de uma droga ilegal, com o peso que essa acarreta, é sintoma de uma sociedade doente que precisa e deve ser tratada.

  • Angélica

    Concordo com você. A sociedade adoece nem se liga na gravidade de seus problemas. Fica numa euforia com tudo que remete às novidades do consumo.
    abs
    antonio paulo

  • Thiago Augusto disse:

    Prof. Antônio Paulo,

    Ao ler sua reflexão sobre esse tema das drogas como evidência de uma sociedade doente, me veio na mente, quase que automaticamente, uma velha e conhecida música de Lobão, chamada “Essa noite não”. Como sei que você também é fã de música, achei válido compartilhar. Abraço!
    http://letras.terra.com.br/lobao/47035/

  • Thiago

    Grato. Vou consultar e curtir.
    abs
    antonio paulo

  • Flávio Alves disse:

    O vício das drogas é o cume de uma montanha de problemas maior que se imagina. Os problemas familiares, financeiros, e psicológicos são os principais causadores dessa crise que se reflete nas drogas.

    Uns a usam para dormir, outros para se divertir, e muitos para se destruir. O problema está dentro e não fora das pessoas. Se quisermos resolvermos esta realidade, precisamos primeiro tentar ajudá-los a resolver seus próprios problemas internos.

    Tiraram Deus das escolas e deixaram as drogas ocuparem o espaço.

    Abraços!

  • Flávio

    Os valores e as tradições são jogadas no lixo, com muita rapidez. Falta solidariedade. As referências estão se desmanchando. Então, o desmantelo se faz presente e surgem os meios de fuga e de destruição.
    abs
    antonio paulo

  • ladjane disse:

    droga é uma palavra que nunca soou bem, a não ser quando esta é usada para tratamento de doenças.por falar em drogas até parece que as lícitas, como bebida e cigarro,fazem bem à saúde.
    Lamento ver tantos jovens imersos nesses vícios, fazendo deles um cano de escape para seus problemas.
    E a cantora Amy Winehouse? com tantos talentos, mas se foi e ainda deixou um péssimo exemplo para os jovens anônimos que se espelham nos famosos.Com isso,recorremos para a explicação da pulsão de morte de Freud.
    só mesmo um grande especialista para saber o que se passa no inconsciente dos indivíduos.

  • Ladjane

    O mundo cheio de contradições e consumismos tira a possibilidade de buscar formas de sentir a vida sem tanta amargura e vazios. Não custa ver por onde construir outras expectativas. Muitas perdas provocam desesperanças.
    abs
    antonio paulo

 

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