As dúvidas dialogam com os significados do vivido

Quando Descartes escreveu o famoso Discurso do Método abriu uma reflexão que ganhou espaço quase permanente na história. Estamos nos referindo à cultura ocidental hegemônica. Os paradigmas orientais são outros. Há semelhanças, mas as travessias são diferentes. A expansão da sociedade capitalista aproximou muitas coisas. Hoje, se tornou comum falar-se em globalização. A capacidade de informação nos surpreende. Usamos produtos chineses, conhecemos literatura turca, vemos o futebol se estender pelos países árabes. Os meios de comunicação investem fábulas, balançam as bolsas de valores com suas ações, criam comportamentos massificados. Uma outra cultura formou-se, complexa, valorizando o intelectual e suas teorias, fortalecendo debates e renovando privilégios.

Descartes olhou o passado com interrogações profundas. Lançou-se, desfazendo dogmas, porém não negou a divindade suprema. A Igreja manteve sua força, com furos que aumentaram com o crescimento da modernidade. O jogo é difícil de interpretar. Pensar traz crítica e redefine o lugar do mistério. É um exercício cotidiano ligado à existência humana. No entanto, nem toda reflexão quer salvar a solidariedade ou encaminhar práticas sociais rebeldes. Portanto, Descartes estremeceu o passado medieval, mas a história não se move anulando o que viveu. As mudanças deslocam-se, implicam em redesenhar de lógicas, convivendo com vestígios. O tempo linear é uma máscara.

O mundo dito pós-moderno não desconsidera as afirmações cartesianas. Ele é lembrando, possui estudiosos que lhe dedicam análise e (re)leituras importantes. Cito Descartes, contudo não faltam exemplos. Quem se esqueceu das ideias de Platão, dos relativismos sofistas, das afirmações políticas de Maquiavel, das ousadias artísticas do Renascimento, das inquietações de santo Agostinho? Nunca é demais esse diálogo, porque há tendência a contaminações com as novidades, com desprezo para os ensinamentos de memória. Transformar tudo em objeto descartável é, para mim, uma ausência de compromisso histórico. Quero conhecer, apenas, o presente,é uma extravagância e colocá-lo numa solidão cheia de agonias.

Repetir que o saber tem suas amarras com o poder não resolve. Há uma forte tendência a exaltar a fragmentação, com se fosse impossível observar que a cultura é múltipla, tem suas distinções, mas seus entrelaçamentos são fundamentais. Descartes descreveu um mundo que já se foi? Nada se vai de vez. Isso intriga e incomoda aos que querem a superfície e o brilho das vitrines. Na vida individual, sentimos como cada instante caminha junto de lembranças, filtrando momentos distantes e não abafando certos sentimentos que parecem espelhos cheios de fotografias inesquecíveis. Daí, as muitas ilusões, as saudades, o desejo de sentir o delírio de eternidade.

Continuamos, ainda, cercados pelas dúvidas. Elas tocam outros ritmos, nos trazem recordações, embora a escrita seja outra, os significados da cultura exijam outros vocabulários. Nem por isso, os vestígios deixam de entrar nas narrativas atuais. O antigo e o moderno estão na vida, desfilando pelas ruas, atiçando as angústias acadêmcas e afetivas. As vidas permutam experiências, buscam relatos, fundam mundos virtuais. Nas ficções literárias, temos inúmeros registros da simultaneidade dos tempos. A arte reveste-se, muitas vezes, de tons proféticos, mas sem destruir nostalgias. Os mitos dançam nos asfaltos, invisíveis, mais perturbadores.

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2 Comments »

 
  • DIÓGENES disse:

    O que escolher? Um mundo centrado na obediência, ou um mundo do prazer, de desfrutar ao máximo a vida? A figura retrata bem isso. Mas o que ganhamos em sermos obedientes, solidão, viver naquele mundinho, sem companhia, muitas das vezes sem afeto, já procurar a felicidade, é descobrir o que o mundo tem de bom e também o que o mundo tem de ruim, é conseguir vencer barreiras, superação; para mim isso é bom, vencer obstáculos para encontrar a felicidade. Mas é isso continuamos cercados pelas dúvidas e assim o tempo anda.

  • Diógenes

    Fez um comentário que tocou em pontos importantes. A dúvida persiste , porque as escolhas nos acompanham. A multiplicidade é grande.
    abs
    antonio

 

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