As escritas e as palavras no meio da vida veloz

As frentes de luta são muitas. Não deixarão de existir. Por isso, a multiplicidade de armas é um fato. Cada campo de luta exige suas estratégias. Há as dimensões intrigantes de conflitos permanentes. Armas pesadas, fluxos de interesses tensos, genocídios preparados com requintes anunciadores de negociações impossíveis e rivalidades consistentes. Os lugares dos perdões mudam e, às vezes, nem é possível visualizá-los. O tempo dos acordos diplomáticos não funciona quando as escritas estão desmoralizadas e as palavras vazias de significados. O sentimento de destruição predomina e vida se dilui. Valem a vingança, o desmontar das culturas, o desprezo pelo outro.

A corda bamba da sociabilidade se mantém, porque qualquer quebra tem ressonância no caminhar da história. Há imaginações de paraísos, de criações de deuses poderosos, mas há também visões de apocalipses, de tribunais instalados para julgar os pecadores. As antigas profecias tinham a marca de palavras sagradas. Hoje, poucas palavras e muitas imagens povoam o mundo. A linguagem das redes sociais brinca com sinais mínimos, acha os textos extensos e reflexivos um desperdício. As comunicações se casam com a velocidade da internet e a urgência das superficialidades. Os sentimentos ganham outros códigos, mostram-se em fotografias e objetos. As declarações românticas estão fragilizadas, pois o amor inventou outras sensibilidades.

As práticas cotidianas não se extinguem de vez, mas não cessam de acompanhar as exigências das trocas que valorizam o tempo da atividade econômica. Portanto, os emblemas se transformam. Mesmo a resistência das nostalgias não impede que as ruínas atinjam as relações sociais. Sobram vestígios, para que a memória não se esvazie. Pensar a história sem os diálogos entre passado, presente, futuro é desfazer-se dos entrelaçamentos da cultura. A velocidade provoca esquecimentos, aponta para delírios progressistas, porém não sobrevive, apenas, com o aqui e o agora. É preciso acumular experiências, consultar tradições, revisitar conhecimentos.

A palavra veste-se da gramática de regras objetivas e telegráficas. A ficção não morreu. Pamuk continua escrevendo seus romances intermináveis e Manoel de Barros, seus poemas belos e mínimos. A palavra não tem autonomia, está enredada nas aventuras humanas. Representa magia, ajuda a concretizar acordos comerciais, promove revoluções na arte. Está colada na cultura.Explica, analisa, seduz, distrai, celebra. Pode ser espelho ou adivinhação, é alimento, não importa se engane ou traga certezas. O mundo tem o corpo que a palavra institui e o desenho do mapa que ela configurou.

Exagero? Leia Italo Calvino, Guimarães Rosa, Paul Auster, Mia Couto, Carlos Drummond, Graciliano Ramos e se entregue. Faça uma ponte com o e-mail mais extravagante que recebeu e passeie pelas páginas do facebook. Não se fixe na escrita mais sofisticada, mas observe até onde foi seu envolvimento, o que o toca, o que o desloca  da mesmice. Busque uma expressão para o seu sentimento.Situe-se. Anuncie-se na escrita que o comporta. Talvez, tenha a medida da sensibilidade que o conduz ou da individualidade que o acolhe. Imagine a inexistência das palavras e o tamanho da sua sombra do seu corpo, muda e descuidada. Desenhe, para manter o equilíbrio.

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