Narciso e Prometeu, democracia e instabilidade

As mudanças políticas não param de alterar as relações de poder. Elas estão trazendo dúvidas sobre o futuro da democracia, se ela ainda continua exercendo fascínio ou o perigo das ditaduras, ainda, assombra. As instabilidades, na história, provocam inseguranças e nostalgias. Recorde-se do Renascimento, o quanto ele dialogou com o passado greco-romano e, ao mesmo, redefiniu situações na arte e na política. As reações não têm fórmulas. Muito se especula sobre certas condições objetivas como caminho para revoluções, efetivamente, transformadoras. Mas a história não é coerente e fechada. O que vem acontecendo, nos últimos meses, mostra que não dá para fixar convivências salvadoras ou prever o surgir de um novo tempo.

As tradições não desapareceram e nem podem desaparecer de forma definitiva. Há muitas transformação na produção de objetos, na invenção de tecnologias. Não significa uma falência do sistema dominante. Tudo se encontra muito misturado. A pós-modernidade não renunciou ao passado. Continuam sobrevivendo práticas medievais, com crenças que retomam situaçõe remotas e míticas. Mesmo nas ficções científicas, nos filmes que exploram as astúcias das máquinas, o tempo homogêneo não tem lugar. A confusão de formas e ritmos é grande. Caem modas, recuperam-se outras.   A cultura vai e volta, com sutileza bem tramadas.

Na política, há desesperanças flutuando e rebeldias soltas. Não há planejamentos comuns. Derrubam-se governos, religões estimulam conflitos, ditadores pressionam adversários, a violência comanda o espetáculo. Nem por isso, a democracia foge dos sonhos mais próximos da cidadania e das utopias contemporâneas. A capitalismo alimenta desigualdades e negócios labirínticos. Por isso, os dissabores   constantes , ainda, atormentam.No entanto, uma natureza humana marcada para viver a exaltação do individualismo como sentido único para história não convence. A ideia da democracia reforça a socialização, a estratégia de dividir poderes e bens materiais.

Não dá para afirmar que a propriedade privada dos meios da producão ocupará lugar indiscutível na construção da sociedade, sepultando qualquer desejo de refazer o mundo, com outros valores e pedagogias. É importante a leitura da tragédia grega , para ultrapassar certos preconceitos ou visões de mundo plastificadas. Uma retomada de Prometeu Acorrentado, das suas reflexões, dos entendimentos sobre o humano, inquieta e alerta para os limites e as transcendências possíveis. Faz o contraponto ao narcisismo tão presente no consumismo contemporâneo.

Existem permanências que não movem suspeitas. Elas se inseram, no cotidiano, e reforçam costumes. A memória afetiva que temos das coisas e das pessoas conseguem fixar escolhas. Ela é importante para movimentar os calendário dos tempos. Desfazem a ilusão do progresso, relativizam medidas, sem demonizar o trágico. Narciso se confundiu com sua beleza e não se entrelaçou com sua solidão. Foi incapaz de formar a sua autonomia. Os mitos são espelhos cativantes, pois deslocam as imagens e reconfiguram o presente. Os deuses eram ambiciososo e vingativos. A sociedade tentou inventar deuses quietos e justos. Porém, as realações sociais realçam práticas de violências e cinismos dos poderes. Há sensação de que os deuses não se contaminam com os desfazeres dos humanos. Ausentam-se, sem pecado, nem culpa.

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2 Comments »

 
  • Pablo Fotnes disse:

    Quem garante que a nova transição de poder na Líbia será para uma democracia, tão desejada pelo ocidente? Quem realmente está por trás desta revolução, o povo Libio? E agora, diante desta encruzilhada para o mundo Árabe, contemplaremos as permanências ou mudanças? Isto é o que move historiadores.

  • Pablo

    As dúvidas são muitas. Nada pode assegurar um futuro democrático. Vamos ver como se definem as relações de poder.
    abs
    antonio paulo

 

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