As geometrias das verdades

 

A forma acompanha as concepções de mundo. Quem pensaria a estética sem compreender a necessidade que temos de representar a vida e suas histórias? O que nos desafia é a quantidade incomensurável de situações enfrentadas e os tempos flutuantes de cada época. Não podemos viver sem escolher verdades mesmo que haja desconfianças ou que o relativismo invada as reflexões. Como ter a pretensão de conhecer? Como pensar sem as cores soltas na imaginação, procurando definições e desenhando desejos?

Os pertencimentos nos seguem. Os amores passam, as saudades resistem, a memória guarda perfumes. Mas qual será o amor verdadeiro? O que significa o sentimento numa sociedade veloz? Será que a verdade é curva? Estamos caminhando numa linha reta enganados pelas novidades consumistas? Quem vence se coloca como controlador das interpretações. Torna-se o grande sedutor, o criador de paraísos, A vitória, porém, está marcada por poderes, nem sempre assegura o sossego do coletivo. Há medos, sustos, desamparos, abandonos…

Os conflitos perturbam a busca da certeza. Quem não gostaria de construir destinos, adivinhar o dia do juízo final ou afirmar, sem hesitação, que tudo é  jogo ou brincadeira? Onde estarão os deuses? Há espaço junto das estrelas para se configurar as eternidades ou existem cavernas com espelhos que traçam as conjugações do infinito? Poderíamos escrever com anúncios permanentes de perguntas. A tragédia não é representação da vida? Quem inventa o começo e espera o infinito? A morte se olha no espelho?

Sinto-me  muitas vezes, numa corda bamba. Resta armar as palavras, como um jogo de lego com peças desiguais. Cada texto dialoga com momentos, não deixa de revelar afetividades. Ele não sobrevive sem solidão, mas não é proibido dividi-lo. Esse movimento possui várias ambiguidades. Não à toa que existem os mitos, que Prometeu não se rendeu às pressões e preferiu o sofrimento. Seria possível riscar do sonho o perdão e a astúcia e respirar, apenas, ingenuidades? O pecado e a culpa ajudam a construir a história?

Coloco-me como se estivesse na arquibancada de um circo. Transcendo o que me parece óbvio, desconsidero os infernos e os demônios. A cena derradeira pode ser a multiplicação do riso ou a esperteza do acrobata. Sem acreditar em verdades atravessamos as esquinas com os sinais fechados. Elas acolhem a geometria do efêmero. Quantos segundos tem a vida, quantas dores não assumem os corpos e se enterram na subjetividade invisível? As perguntas não se vão, o circo é um espetáculo que ocupa avenidas. Há uma sede que  se cristaliza. É anônima e traiçoeira. Sabe que o deserto não desaparece, se disfarça.

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