As gerações, as rebeldias, as mudanças, as ordens

Há quem faça da história um desfilar das hierarquias. Procuram as chamadas idades das fortunas e elegem gerações insuperáveis. Cria-se uma nostalgia doentia. Qualquer amargura é logo colocada no estaleiro. O passado passa a ganhar fôlego e o mundo se fragmenta. Voltam-se aos delírios do progresso , só que pelo lado avesso. A questão da simultaneidade se esvazia. Parece que a idéia de destino se afirma. Restam lamentações e saudades. Avaliam-se os períodos da história, com se estivesse num concurso para cargos públicos. Então, tensões se multiplicam.

Temos julgamentos radicais, com densidades políticas importantes, onde não se valoriza a experiência. Tudo se completa com homogeneidades absolutas. As contradições não são analisadas, pois as reflexões se escondem na vontade do imediato. Não é fácil enfrentar a complexidade. Trazer as quantidades para o cenário da história é não observar como os tempos se tocam. Vivemos soltos, pouco ligados ao que constitui as relações sociais. Termina tudo se definindo  nas pressas dos relógios e na operação custo/benefício. Matematiza-se até os sentimentos. O importante é , para alguns, manter os olhos abertos para acumular grana e objetos.É o significado da ordem que estende no contemporâneo, naturalizada.

Quando se busca o passado, ele vem como uma fotografia que confronta com as cores dos instantes atuais. Códigos sintéticos, sem especulações existenciais. Portanto, os adormecidos choram, nos seus sonhos, o que se perdeu, e os agitados empurram o futuro acreditando na redenção dos pecados. Não há esforço para configurar os entrelaçamentos. Fixa-se um dualismo que, sempre, retorna e  estraga a inteligência. O mundo do bem e do mal, colocado com uma clareza que dói, ainda tem um eco admirável.A ordem não é, porém, inabalável. Não se convive com eternas acomodações. Surgem as rebeldias.

Cada época, com suas construções e armas, articula alternativas. A história ouve Vivaldi, Piazzolla, Cartola, Roberto Carlos,  músicas que desenham seus ritmos. Lê Kafka, Pamuk, Agualusa, Kant que ajudam nas superações e nas diferentes  escolhas. Portanto, a ordem tem seus furos e as transgressões buscam aprofundá-los. É a animação da cultura. Já pensou se todos se entusiasmassem, apenas, com as obras de Salvador Dali ou só lessem Machado de Assis? Figuras de grande expressão, mas onde ficariam os contrastes, os contrapontos, as trocas de conhecimentos? Como se estruturariam as gerações e reorganizariam suas estratégias de sobrevivência?

Essa mania de optar por dualidades permanentes desfiguram a história. Mudam as invenções, os costumes, os prazeres. Como, então, determinar comportamentos e consagrá-los como exemplares? Os jovens, em 1968, abalaram tradições com discursos, ações e passeatas. Deixaram a polícia francesa perturbada. As grandes cidades se assustaram com seus impulsos e críticas ao capitalismo e à burocracia. Hoje, os meios de rebeldia se revestem de outros sentidos e trilham outros caminhos. A tecnologia auxilia, também, a fazer desmantelos na ordem dominante. Ela não é, apenas, serviçal das empresas multinacionais. Quebrar o que se conserva demanda olhares firmes. Não esqueça de Gandhi, nem de protestos silenciosos que incomodam os poderosos. A autonomia não saiu do cotidiano, nem mora em cavernas inacessíveis.

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2 Comments »

 
  • Valerio disse:

    Antonio, o maniqueismo tem algo de simplificador para quem se guia por ele e maquiavélico para quem induz os outros a aceitá-lo.

    Resistir aos atrativos do rebanho é papel à busca de ator.

    Até breve.

  • Valério

    É na busca de autonomia que construímos as rebeldias possíveis. Ainda, há fôlego para o contraponto.
    abs
    antonio paulo

 

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