As guerras sustentam ambições e desacertam mundos

As histórias percorrem tempos, nunca com os mesmos sentidos, mas descrevendo experiências, lançando dúvidas, mendigando certezas. Não podemos viver sem elas. Temos encontros com o tempo. Ele não é um todo homogêneo. Atravessa finitudes e projetos, sem perder de vista que a cultura costura sociabilidades. Há quem pense na serenidade, em significados repetidos e comuns. As transformações negam que vegetamos em mesmices, sem possibilidade de inventar ou construir rebeldias. As histórias possuem inúmeras travessias. Contá-las é olhar-se num espelho de formas múltiplas. Não estamos livres das mesmices, mas não somos escravos da continuidade. Há quebras e redefinições.

Não dá para negar que a busca é sempre confusa. Existem conceitos, dialéticas, ordens, esclarecimentos, contudo os incômodos acompanham cada trajetória. Não há como silenciar. Desfazer-se da memória é sair da convivência social e acenar para o fim de tudo. A complexidade permanente traz desmantelos e frustrações. Quando analisamos as guerras, suas formas de organizá-las, tocamos em desesperos, mas também em estratégias de poder. A guerra sobrevive, com sua violências, incorporando as sofisticações tecnológicas, sustentando modos de produção. Ela assusta, se infiltra no cotidiano de povos atordoados, com futuros ameaçados.

A indústria bélica não é ficção. Ela alimenta cofres, salva governos de crises fatais, possui especialistas e fabrica mentiras articuladas. Nos tempos mais remotos, as questões eram outras. Hoje, a guerra mobiliza interesses internacionais, financia eleições de governos, provoca abertura de mercados, faz da paz um fantoche. Republicanos e democratas representam, nos Estados Unidos, concepções de mundo que passam pela defesa ou crítica às máquinas de guerra. Quem analisa as histórias dos norte-americanos não pode dissociá-las dos confrontos com outras nações, dos lucros com as guerras mundiais, com a montagem de esquemas militares portentosos. O jogo é pesado e influencia no resultado das disputas presidenciais. Alguém está esquecido de Kennedy ou de Bush?

As guerras espalham-se pelo Oriente Médio. Elas ambicionam soberanias e castelos, praticam genocídios e exaltam caminhos de salvação. Não faltam fanatismos religiosos, mas sobram também cinismos, brigas diplomáticas na ONU, aflições de refugiados. Eliminar o outro parecia uma prática antiga. A modernidade expandia sonhos de sossego, de progressos científicos, de encontros entre as culturas. A ambiguidade nunca se desmanchou. Os colonialismos estão presentes, as censuras oprimem, as hipocrisias são máscaras de valor imenso. A democracia não consegue se afirmar, porque o espaço dos individualismos é praticamente desmesurado.

Adão e Eva lembrem, talvez, um estranho aviso. Não é uma história à toa.  Fala-se  de um pecado original que nos torna culpados . A sociedade não se cansa de construir suas distrações. Ninguém vive mergulhado no sofrimento, para sempre, cercado do fogo dos infernos. O que mais corta as utopias é  a frequência das armações ilimitadas. Como se não houvesse uma geometria decifrável e a história marcasse ritmos pelos descompassos que se fundam nas culturas. Os tempos modernos não simbolizam a paz. As guerras estão nas redes urbanas, nas burocracias, nas fortalezas dos arrogantes. A política negocia calmarias melancólicas. As imagens da TVs desenham guerras com astúcias de videogames.

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