As guerras desenham o jogo da violência

Há épocas que convivem com instabilidades crescentes. Não acordamos, sem sustos. Os pesadelos assumem o cotidiano. Com a velocidade dos meios de comunicação não existe descanso. Aconteceu, estamos ligados. Kadafi não sai da berlinda ou  não quer sair. Seus fingimentos convencem só aos mais fanáticos, pelas suas posturas autoritários. Seus ares messiânicos balançam certos corações. Sua situação está, aparentemente, por um fio. Os senhores do mundo resolveram ir ao ataque. Os motivos são vários. A ONU é a porta-voz da indignação internacional. A violência estica as estratégias da destruição.

A guerra não sai da história. Exaltam-se desenvolvimentos, proclamam-se princípios democráticos, criam-se leis de  paz, mas os conflitos permanecem. Desde os primórdios, não há espaços para encostar a cabeça e escutar o silêncio do mundo. Nos dias atuais, as balas passam raspando os corpos dos mais inocentes. Não precisa frequentar campos oficiais de batalha. Morrem cidadãos vitimados pela gratituidade, totalmente surpreendidos pela força das vinganças ou das conspirações. Falam  até de guerras programadas para finalizar com as disputas. Uma ironia melancólica.

Muitas fantasias. O cinema termina sendo mais verdadeiro. Lembro-me dos acontecimentos do Vietnã. Uma confusão que me incomodava. Era o absurdo multiplicado por mil. Os norte-americanos não percebiam os descontroles ou se consideravam insuperáveis ? Perderam e sofreram frustrações que se espalharam pela sociedade. Nem todos sentiam-se satisfeitos e a luta contra a continuidade da guerra era comovente. Filmes, poemas, manifestos, passeatas denunciavam o horror. Mas ela durou um tempo, quase eterno, e as experiências científicas não desmontaram o heroísmo dos asiáticos. O mundo do imperialismo conviveu com um inesperado desastre.

As lições são esquecidas. A comunhão, entre os povos, parece discurso de político descoordenado. O Vietnã não fechou o circuito. Os genocídios continuam, agora, ocupando os noticiários das tvs, com imagens dantescas. Sobram etnocentrismos. As riquezas desnorteiam e os pactos são passageiros e cínicos. O crescimento das cidades trouxe a guerra, para dentro da vida urbana. Os disfarces se vestem de cores esquisitas, porém muitos são devorados pelas ambições. O campo de batalha é amplo. Há indústrias que se alimentam  da quantidade de violência, da falta de respeito pelos direitos humanos. Não bastam as ditaduras prolongadas. Observem o comércio de drogas.

Há fatos que nem se destacam na mídia. A memória é seletiva e as redações dos órgãos de imprensa, idem. A sociedade vive circunstâncias, às vezes, indescritíveis. A notícia é, também, mercadoria. Há pressões e recusas éticas. Nem todos entram na vulgaridade de shows que mostram corpos ensaguentados, para atrair audiência e movimentar patrocínios. Sabemos que insistir na mesmice é se anular diante da crítica. As últimas rebeldias têm derrubado governos e acionado esperanças. Os ataques a Líbia podem significar a queda de mais um deles. Como as transparências  ficam  na hora de definir as explicações? O  que o presidente da França almeja? O Conselho de Segurança da ONU atende a que interesses? E os embaraços de Obama? A guerra é um mal-estar insuportável, para muitos. No entanto, há quem se abasteça dos seus desmandos.Por isso, ela não desaparece, mesmo que maltrate.

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6 Comments »

 
  • Flávia Campos disse:

    Antonio, haja instabilidades, sustos, pesadelos…
    A paz é possível, mas a guerra se impõe e permanece sem trégua…
    Como não sucumbir em tamanho campo de batalha?
    Quais as nossas chances de viver existindo e resistindo?
    Lembro das suas reflexões, junto às de Paulo Henrique (na Rede Municipal de Educação do Recife) nos motivando para um diálogo mais perto do outro, por meio de novas formas de convívio, do fortalecimento da solidariedade na perspectiva da reconstrução cotidiana da nossa condição de seres humanos, em meio à complexidade da vida coletiva.
    Aprendemos a “Teoria da Dádiva”, mas não exercitamos com o devido compromisso o incansável ensinamento do “dar, receber, retribuir”, pelo simples motivo de tentar reinventar uma ordem social/cultural mais justa, respeitosa e prazerosa.
    Bom ter em seu Blog uma chamada permanente para a crítica e, em especial, para a autocrítica, pois sem ela como avaliar o caminho percorrido e a dimensão do que ainda precisamos percorrer na nossa breve trajetória do conhecimento/reconhecimento/sentimento comum.
    Grata, Antonio, pela escuta atenta e sensível aos apelos da História, aos compassos da vida, aos desenhos das guerras, aos aparentes silêncios da paz, a abertura para o futuro.
    Bjs
    Flávia

  • Flávia

    É preciso otimismo para viver e crítica para buscar caminhos que evitem a mesmice. Vamos adiante, há também o insperado.
    bjs
    antonio paulo

  • Kbção disse:

    O pior nessa balbúrdia é o esvaziamento do antigo sentido da “Guerra Justa”, afinal esta existe, mesmo que analisemos o mundo sob a perspectiva utópica (ingênua?) da Paz Perpétua kantiana, onde todos os conflitos seriam aprioristicamente (palavrinha em homenagem ao filósofo de Könisberg…) condenados.

    Abraço

    Kbção

  • Kbção

    As guerras sempre envolvem relações de poder e escolhas políticas. Quem tem a hegemonia aparece como o justo. Mas a violência prova que as culturas carecem de caminhos de solidariedade. Essa luta permanente parece confirmar a famosa pulsão de morte freudiana. Por que exterminar o outro ou buscar justificativas para usar a bomba atômica? Gostaria, imensamente, que o mundo tivesse outros desenhos. A confusão é grande, mas somos sujeitos pensantes e colaboramos para resolvê-la ou aprofundá-la. Estamos no mundo e dele dependemos. Até quando viveremos na corda bamba?
    abraço
    antonio paulo

  • Kbção disse:

    É isso aí! Acredito que a explicação por toda essa fúria bélica passa pelo “mundo interno” dos homens, afinal em toda a divina comédia humana não há notícia de épocas ou povos essencialmente pacíficos.

  • Kbção

    Pois é. Quem sabe um dia, outras gerações curtam a vida com mais prazer. Grato pelos diálogos.
    abraço
    antonio paulo

 

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