Ambiguidades, narrativas, trapézios

Há sempre sonhos. Compor a sinfonia da vida com aridez constante é esconder o ânimo. O mundo não se completa, está cultivando adversidades assustadoras. Quem pensava que a tecnologia salvaria a sociedade viveu uma ilusão incômoda. As comunicações espalham notícias de várias partes, mostram a confusão cotidiana e dificuldades de aproximar projetos. As tensões não se deslocam da história. Podemos inventar utopia, idealizar modelos políticos solidários, mas as competições ainda produzem genocídios e marginalizam imensos contingentes populacionais. No Brasil, são incontáveis os desacertos. As secas se repetem, com manipulações cínicas de poderosos e os índios não se cansam de reclamar das arbitrariedades.

Não dá para encantar-se com as conquistas materiais, observando que os governos transformam as pessoas em mercadorias e acham que incentivar o uso das máquinas é a saída para consagrar o desenvolvimento. A qualidade é discutível, porque vale o discurso que justifica a acumulação. Muita gente, nas ruas, imobilizadas pelo trânsito, desperdiçando tempos e desconhecendo os caminhos do afeto. Andamos mecanicamente na busca de obedecer a horários escravizantes. Mas o capitalismo é esperto para atiçar seus circos e sossegar os mais inquietos. Sabe que manter a ordem exige apoio de planejamentos sintonizados, pouco preocupados em facilitar uma convivência mais solta.

A ambiguidade está em toda parte. Prometeu já provocava os deuses. Não suportava a tirania. Ela não se foi da história. Possui outras máscaras. Aprimorou sua visão do paraíso. Muitas religiões entraram firmes nas especulações das bolsas, movimentam milhões, vendem indulgências como antigamente, constroem templos fabulosos. Querem a fama. Elegem seus ídolos, catam seus hinos  pops, sem deixar de selecionar preconceitos e investir na mídia. É a famosa inclusão que fortalece quem se adapta bem às explorações seculares. As inquisições não perderam seus lugares de censura e de medo.

Viver a história é defrontar-se com as sinuosidades. Existiu a era das revoluções, o desespero das grandes guerras, a revolta contra os totalitarismos. Nem tudo se desfez, mas nem tudo é o mesmo. Os teóricos desafiam as continuidades, criam raciocínios, porém não há como desmanchar os sinais de permanência. A história ressente-se de identidades fixas ou elas nunca existiram? Os românticos desmitificaram o conforto da razão, retomaram sentimentos, foram críticos dos iluministas. A sociedade, porém, parece flutuar na conjugação de todos os tempos. Talvez, os ritmos variem e tragam as controvérsias. Como narrá-las só com as luzes e diluindo as sombras?

Na academia, a discussão é mais assanhada. Ele não foge dos vícios do mundo da produção. Promove hierarquias, sente que o isolomento é uma perda. Estamos na aldeia global. Não existem ilhas, nem fronteiras imutáveis. Tudo se toca, embora as diferenças ajudem a evtiar uma mesmice continuada e adormecida. Para que a cultura sobreviva é necessária a inquietação e a dúvida. As alternativas se chocam, os abraços podem revelar hipocrisias, mas as adversidades se envolvem com os paraísos. O mundo se faz num ambiente de instabilidades. Muitas vezes, alimentamos sossegos individuais. Eles são tênues. Desistir da vida é sepultar a história. Enquanto há conversa, há desejo, há trapézio.

 

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