As histórias dos enganos e das tensões constantes

A euforia precipita. Não há regras fixas para os acontecimentos históricos. Muitas revoluções caíram num autoritarismo constante. Perderam suas utopias iniciais e referendaram, cinicamente, o passado. Consagravam o jogo maquiavélico do poder. Não precisa de profundidade. Observe o que fez a burguesia no século XVIII e XIX. Não sacode fora os cenários napoleônicos, as ambições de propagar a liberdade oprimindo e colonizando. Portanto, o espaço da tensão é amplo. O conflito é aceso por interesses cativados pelo individualismo. Conhecer a história é buscar a frágil medida que diferencia as luzes das sombras. Elas também se confundem.

Não esqueça Nietzsche. Os valores alteram-se quando os criadores mudam. Se se quer criar, é necessário começar por distrair. Os criadores de valores foram inicialmente povos e só mais tarde os indivíduos. Na verdade, o indivíduo é a mais recente das criações. A densidade das reflexões merece contemplação. O vazio dos valores ou falta de uma ética coletiva esfacela a sociabilidade. Se tudo permanece nos tentáculos do egocentrismo, a violência não se fragiliza. Muitos vezes  fabricam-se imensas análises sociológicas, porém se esquecem do básico.Mascaram a competição e naturalizam as desigualdades políticas. Usa-se o saber acadêmico com disfarces de neutralidade. Enganações.

Reafirmar que a história é uma construção não alimenta o sossego. É decisivo  reativar o olhar viajante, peregrino, que sente que o tempo possui fôlego e não calendário datado e homogêneo. Não é, pois, necessário que haja coisas  para lá das quais se dança e que se ultrapassam dançando? Por amor dos seres leves, mais leves que um sopro, não é  necessariamente que haja também toupeiras e pesados anões? Nietzsche não dispensa os paradoxos. Como pensar a leveza sem o peso, o abismo sem o voo sedutor sobre as planícies? Portanto, não configurar uma única cartografia estimula a imaginação e a transcender ao desencanto.

A leitura das histórias pressupõe esforços. Não se encontra em cofre e em fórmulas de laboratórios. Por isso, o desafio a faz ambígua, vizinha da geometria das interpretações. Não se amedrontar com o engano é uma sabedoria. Recentemente, cantaram a chegada da democracia no Oriente Médio. Festejam a falência do  autoritarismo. O assunto ocupou semanas, apenas alguns alertaram para a especificidade de cada cultura. A morte de Kadafi pareceria testemunhar o desfazer dos tantos desmantelos dos ditadores vitalícios. O futuro escapa, depende de pessoas, de manobras jurídicas, soldados inquietos, religiões redentoras. O humano navega no oceano do limite.

Novamente, conflitos anunciam que as diretrizes políticas, no Egito, não prometem discussões, mas confrontos militares agudos. A violência não cessou. A democracia exige renúncias, negociações, perdas. O pior é falta de transpararência. O agir do coletivo fica aprisionado. Buscam-se verdades, suas sacralidades, portanto as velhas questões divinas tomam lugar. As histórias não fogem da complexidade. Não há varinha mágica que solucione intrigas que se arrastam por décadas. Conversar sobre o humano redefine a caminhada, numa sociedade de coisas esfuziantes. Tudo pode terminar indo para vitrine, com exposições universais e efêmeras. As notícias têm o perfume do descartável. Seus valores diferem dos valores analisados por Nietzsche.

You can follow any responses to this entry through the RSS 2.0 feed. You can leave a response, or trackback from your own site.

2 Comments »

 
  • Emanoel Cunha disse:

    Há um fato que muito intriga a historiadores, filósofos e pesquisadores acerca dos prelúdios Nietzschiano Além de seus estudos ser extemporâneo de sua década, marcada por questionamentos de sua própria dualidade de progresso e regressão. O filósofo adentra em territórios que mechem com as incertezas do homem diante de sua antropocêntricidade.

    A idéia do eterno retorno analisada no cíclico movimento do tempo,nos faz refletir a designação do homem em uma perspectiva em que as coisas não parecem ser como nós as conheçemos: elas aparecem para nós sem a circunstância atenuante de sua fugacidade. Perante a essa abordagem com efeito, essa circunstância atenuante nos impede de pronunciar qualquer veredicto.

    Professor Antônio Paulo, aí vos pergunto: como condenar o que efêmero?

    Abr

  • Emanoel

    O efêmero deixa poucas marcas na história, mas tem significados. É sempre bom ver como as coisas se entrelaçam, o coletivo, o social, com ritmos que se parecem e se distanciam.
    abs
    antonio

 

Deixe uma resposta

XHTML: You can use these tags: <a href="" title=""> <abbr title=""> <acronym title=""> <b> <blockquote cite=""> <cite> <code> <del datetime=""> <em> <i> <q cite=""> <s> <strike> <strong>