As histórias dos outros, os paraísos sem Adão

Olhar-se, no espelho, é um hábito. Ele se repete, inconscientemente. Nem todos dão importância ao seu valor. Esquecem que é um ritual da vida. Muitos desconhecem o mito de Narciso. Outros se demoram, admirando suas imagens e advinhando os traços dos seus destinos. Acontecem reações diversas, mas, nas cidades modernas, os espelhos possuem poder e determinam sentimentos. Um foco, na tristeza, pode desarrumar os planos de um dia. A passagem do tempo é buliçosa. As rugas perseguem os momentos e desenham suas escrituras silenciosas.

O mundo Ocidental cultiva vaidades. Depois das mudanças trazidas, pela industrialização, a quantidade de produtos fabricados influencia na forma de viver, escolher e desfrutar privilégios. A competição é constante, perturba  os sonhos mal resolvidos. As promessas de salvação ditam tradições ou derrubam convivências. A memória é assediada por informações. Cada sujeito firma-se na sua ambição ou se desmantela com as suspeitas de frustrações. A acrobacia assusta, quando não se abraça com os cantos de Philip Glass.

As culturas multiplicam seus mapas de controle. Elas não sobrevivem sem a sociabilidade, sem o toque do outro. O individualismo, porém, cria solidões, como se o outro fosse um fantasma inútil. Sacodem fora qualquer desejo de paraíso e transformam suas rebeliões internas em territórios estranhos, onde drogas e vaidades estendem seus descaminhos. Insistir que as diferenças movem as culturas é uma necessidade. As dominações montam hierarquias, pontos de preconceitos e motivos de conflitos, mas a inércia não se torna soberana.

As culturas existem, porque as trocas se dão no cotidiano de cada povo. As trocas se dão na fabricação de interesses e de seduções. Pensar que há culturas puras, estimular o etnocentrismo é reviver ansiedades autoritárias. Foi, assim, que o fascismo se esticou, produzindo genocídios e aprontando teorias traiçoeiras. Não é, apenas, a globalização do mundo que fermenta as misturas ou estrutura a permanência de proximidades. No passado, já se discutiam as distâncias, as identidades, as complexidades.

Toda sociedade carrega suas invisibilidades. Pisa no concreto e viaja na imaginação, quase sem perceber. Somos estrangeiros, em quartos íntimos, e festejamos aventuras em desertos desconhecidos. Portanto, as ordens são artifícios, jogos de armar limites e impedir contágios, com a embriaguez das novidades. Mudam, pois o cansaço não permite descontroles profundos, só repousos sem medidas. Morder a maçã, sem eleger o pecado, tem sabor e atiça as asas dos arcanjos. Quem perdeu a pintura do último amanhecer e adormeceu se desfazendo de todos os pesadelos?

Estamos na vida, bordando as palavras, para não apagar o ontem. Os acordes das sinfonias de Wagner se cruzam com os concertos de Vivaldi. Os poemas de Octavio Paz acalentam recordações do amor de Tristão e Isolda. As diferenças se manifestam, para que não nos descuidemos dos outros. Se a pedagogia do capitalismo reforça a fama e a exploração, outros ensinamentos expandem a paciência e o afeto. O que nos confunde são as incertezas, quando nos subordinamos à prevalência dos dogmas. O tardio alimenta a sabedoria. Ela entra no corpo, devagar, preserva os espelhos e os encantos dos rostos. Sem se constranger, conjuga todos os verbos transitivos, rascunhando a face de cada necessidade.

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