As histórias passam, as conversas se entrelaçam

 

Nunca compartilhei com a ideia de que a história é uma sequência linear de grandes fatos. Não celebro guerras, colonizações, progressos opressores. Gosto de observar certos detalhes, mergulhar nas divergências cotidianas, refletir sobre questões que permanecem firmes apesar das mudanças. Sinto que há muita perplexidade, pouco cuidado com o outro e uma sociabilidade duvidosa. A história segue não há como negar. Constrói culturas e tenta redefinir convivências.

Nem tudo se repete, mas existem comportamentos que lembram o passado. Quantas formas de violência ainda persistem? Há brigas inesperadas em jogos de futebol ou outras programadas nas redes sociais. E os conflitos constantes, as disputas por territórios, o aumentos do número de miseráveis? Torna-se, muitas vezes, inacreditável o fluir de tantas invenções científicas, junto, com contradições sociais agudas.

Há quem cultive o mito do progresso. Elogia a acumulação, se encanta com as tecnologias. Simpatiza com a razão cínica que ajuda na fixação de regras, aparentemente, democráticas. Visualizo, com clareza, uma crescente concentração de riquezas e o individualismo envolvido pelo fetiche das mercadorias. Não vou afirmar que as respostas encontradas para certas dúvidas e impasses não mereçam ser consideradas.

O que acho estranho são as euforias que escondem abismos e dominações. A sociedade do espetáculo possui espertezas que se multiplicam. Quem a controla consegue fabricar mantos que vestem a nudez das desigualdades globalizadas. Seria difícil imaginar um mundo sem contrastes, cercado de paraísos e animações solidárias. Se existe a incompletude, as ausências não se apagam e as discordâncias ocupam espaços admiráveis.

No entanto, não custa mostrar os incômodos. Por que naturalizar os descontroles e se acostumar com as explorações? No meio das histórias nem sempre há perdas ou tudo é lixo e desprezo? As barbáries não se extinguiram e continuam assustando em plena época de expansão da informática e planejamentos especializados. Não faltam discursos que parecem poderosos na perspectiva de refazer a sociedade e retomar os sonhos das utopias.

Os entrelaçamentos das conversas históricas não se cansam de exibir fugas e desistências.Não é, apenas, isso que chama atenção e provoca agonias. As colonizações são massacram culturas, desmancham tradições para reforçar preconceitos. É esse vaivém histórico que tumultua e dificulta o encontro de saídas. As conversas do tempo não conservam linhas retas, nem desenham hierarquias que garantam evoluções. Sobram registros de confusão.A história passa, mas seus tempos não abandonam desafios.

A fabricação de máquinas fascinantes representam dubiedades incríveis. A indústria da guerra alimenta ódios, destrói crenças, forja generosidades. A morte de Mandela teve uma celebração majestosa, porém revelou hipocrisias diplomáticas ou vazio afetivo que marca as relações entre as pessoas. Ninguém é ingênuo e a rapidez traz a notícia que se vai com facilidade. A informação é um espelho, mesmo que mantenha superficialidades. Amanhã é outro dia diz o calendário preso na parede na cozinha. No entanto, a mesmice sobrevive e multiplica ilusões.

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