As imagens do cinema e os encontros (im)possíveis

 

 A vida move-se. Suas inércias são aparentes. Como uma pausa, numa grande sinfonia, para retomar o fôlego e aguçar os contrapontos. A ficção se entretece com o real. É difícil classificar, enquadrar comportamentos e ficar inventando homogeneidades. As definições são passageiras, possuem o perfume das urgências, das festas que se encerram nas frustrações dos desejos. Vida e morte confundem-se. A arte aprofunda os  riscos dos corpos e dos dramas. As linguagens assumem lugares de adivinhos, porém há  intermináveis estradas, prontas para atravessarem desertos e cortarem tentativas de evitar distâncias e separações. O filme Incêndios, de Denis Villeneuve, por exemplo, consegue sínteses maravilhosas e descortina a multiplicidade do humano, com sutileza e inteligência. Nele, o sofrimento e a busca dialogam e nos chamam para compreender o inesperado.

A primeira cena revela toda força do que nos espera. O olhar da criança, futuro pai, assassino, filho, nos traz o balanço do trapézio que desenhará suas fugas e suas angústias. O mais significativo: o filme nos leva a  acompanhar o inimaginável. No entanto, no final entendemos que a vida é  multiplicidade incomum. Cada um de nós possui singularidades imensas. Nem sempre, as penetramos. Pouco conhecemos de coisas e relações que nos tocam. Vamos seguindo e não escapamos dos tropeços. Não poderia ser diferente. O mundo é vasto. Há etnias, conflitos, cores, mercados, políticas, desprezos, tanta coisa, que armar teorias para analisá-las é uma temeridade. Não desistimos. Mesmo que cercados de dúvida, a travessia não é de fuga, porém de descobertas. Elas provocam ânimos, apesar dos dissabores e das impossibilidades.

A arte faz-se com deslocamentos, pois a arte não é a antítese da vida. Ela sugere, decompõe, cria espelhos. Em Incêndios, questões fundamentais sacodem o coração e ameaçam valores tradicionais. O incesto ronda todo o enredo do filme, o chamado pecado que tanto atormenta as regras da cultura. Ele acontece, transforma expectativas e quebra ódios. Como o amor surgiria de uma situação atingida por torturas e preconceitos? É uma pergunta que nos incomoda. O dualismo não impede que ultrapassemos limites seculares. O bem e o mal também se misturam, desmontam destinos e crenças. Como o mundo é mostruoso.Como o mundo não pode levar um homem a nada, senão ao desespero tão completo, tão inabalável, que nada pode abrir a porta dessa prisão que é a desesperança… (Paul Auster) .

 A desesperança não é uma máscara. Ela nos visita todos os dias. Amedronta, com sombras e pesadelos, e refunda comportamentos. A capacidade de significar, contudo, permanece firme. Ela não deixa que as culturas contemplem, apenas, visões do passado. Lembra que a história não é única. Existem turcos, gregos, brasileiros, judeus, desmantelos, compassos, horizontes … Isso não diz tudo. O mínimo é complexo e os roteiros da ação humana admitem reviravoltas. Arquitetamos projetos, no entanto, seus traços são feitos com tintas claras e mutantes. Portanto, a  memória seleciona sua trajetória, mas as vacilações fazem desandar o que parecia ajustado. O filme tem seu quebra-cabeça que não se estabiliza na tela, nem na mente. A vida está aberta, como uma primeira lágrima, sem rosto e sem amparo.

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6 Comments »

 
  • Marcio Lucena disse:

    Antonio,

    O filme Incêndios (cinema do Rosa e Silva) é incrível.
    Um belo quebra-cabeça. Muitas peças dessa história são manchadas pelo ódio…as poucas peças do amor e do perdão construirão uma nova geometria…

    valeu pelo texto!

    marcio lucena

  • Gleidson Lins disse:

    Ainda não vi o filme.
    No texto, o seguinte trecho levou-me a uma autoanálise: “Cada um de nós possui singularidades imensas. Nem sempre, as penetramos. Pouco conhecemos de coisas e relações que nos tocam”. Como nos esquecemos de nós mesmos no dia a dia.
    Muito bom. Mais uma vez, o seu texto levou-me a refletir sobre mim mesmo.

  • Gleidson

    O filme é amplo e nos dá muito.Pensar a vida é difícil, mas necessário. Ela é inesgotável.
    abs
    antonio paulo

  • Márcio

    A vida é um desafio. Quando a arte entra, para enfrentá-lo, a boa criatividade é uma ousadia. Valeu a indicação do filme. Nada como a beleza envolvida com o drama de cada um.
    abs
    antonio paulo

  • Thiago Rogério disse:

    Boa Noite,

    Infelizmente também noa assisti ainda o filme. Entretanto vou comentar sobre o poder da arte.

    Ao estudar as bases da filosofia observamos quatro grandes características de conciência. A conciêcia mítica, religiosa, científica e intuitiva. Cada uma com suas característica bem definida, pedagogicamente falando.

    Dentre as quatro a arte estaria contido na intuitiva, é a represantação do sentimento, da intuição, muitas vezes com um “universalismo” único deixando a herança para toda a humanidade.

    Provavelmente é uma das caracteristicas o filme citado acima.

    O título do texto também é altamente pertinente, sobretudo, a arte é a unica “instituição” social que consegue quebrar determinadas barreiras na sociedade. A partir da arte cairam centenas de tabus, ao longo da história.

    Dicilmente discutiria-se em outra esfera, que não na arte, temas como incesto e etc.

  • Thiago

    A arte é um campo de sensibilidade e descoberta. Possui uma linguagem que nos aproxima de múltiplos sentimentos.
    abs
    antonio paulo

 

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