As imagens do mundo, o espetáculo, o cinema

 

      

Muitos decretaram o fim do cinema. Tudo ficaria no reino dos vídeos e salas seriam transformadas em Igreja ou casas de comércio. Houve mudanças. Os shoppings concentram  diversões e o cinema se enquadrou nesta onda. Sinto falta dos tempos de adolescente, onde a convivência com os filmes tinha outra arquitetura. No entanto, a velocidade da tecnologia exige atitudes do mercado. O dinheiro corre procurando acolhida. Hoje, são salas geladas, com som sofisticado, muita pipoca e os lugares marcados. O cinema traz grandes públicos. Não morreu, nem passa necessidades. A cerimônia do Oscar ganha manchetes de jornais e atrai telespectadores. É um acontecimento.

É claro que existem vacilações. Fracassos de bilheteria deixam produtoras ameaçadas de falência, provocam pânicos nos investimentos. O capitalismo vive de instabilidades, de sucessos extraordinários e decepções inesperadas. É uma corda bamba, costurada com fios frágeis. Nem por isso, a fama abandona o cinema, transformando alguns artistas em poderosos senhores. Muitos militam em causas ecológicas, mostram generosidades, politizam seus atos. Há desconfianças, críticas, mas se abrem portas para ações sociais e polêmicas sobre as desigualdades tão comuns na aldeia global. Portanto, nada  fora do contexto. A complexidade está em toda parte, não só nas imagens e nas cenas mirabolantes das telas. O cinema continua seduzindo, rendendo, formando novos públicos.

Não houve surpresas na premiação do Oscar. O filme O Artista se destacou, mas Meryl Streep não perdeu sua soberania. Muitos anunciam que uma nostalgia ocupou o roteiro das películas mais comentadas. Quem assistiu à produção recente pode observar vestígios de encantos com a invenção primeira do cinema. Tudo se mistura. História de um passado, quase mítica, com iniciativas de mudar hábitos e renovar a forma de produzir. O mundo não sossega na sua aventura de entrelaçar experiências. A arte não foge do ritmo geral.

O valor de troca dita as normas. As mercadorias requerem acabamentos, rótulos, promoções, propagandas. Ninguém sabe por onde anda aquela verdade tão inquestionável do ser ou não ser. E as identidades desafiando qualquer exatidão e espelho fixo? Os paradigmas são outros. É difícil acompanhá-los. Há desmoronamentos culturais constantes, perda de privilégios, redefinições na forma de dominar. A hierarquia social se abastece de outros valores, mas não perde de vista o monopólio e a forte exclusão da maioria. O consumo está, contudo, mais solto, pois o sistema desenhou outras estratégias e fere desejos, antes, esquecidos.

A sociedade do espetáculo não quer lentidão. Confunde. São olhares velozes, cores alteradas por processos químicos, modelos de comportamento ditados pelas redes sociais. A escola busca se adaptar, redefinir pedagogias tradicionais, porém as linhas diferentes se cruzam em labirintos cheios de assombração. Ocorrem contradições contínuas. Diante da velocidade é preciso paciência. Quem cultiva a pressa não mergulha, fica na superfície. Poucas palavras são quase um silêncio. Os ruídos atrapalham as reflexões. Evitá-las é quebrar as correntes do tempo. O espetáculo pode inibir a rebeldia, mascarar a inquietude. Ele encontra-se nas armadilhas da dominação. A apatia diante do brilho desfaz a capacidade de escolha.

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