As superfícies e os dilemas do presente

 

Não se engane com planejamentos que trazem anúncios de um futuro sem problemas. Nunca entre no vale das promessas sem sentir que a crítica é fundamental para salvar a autonomia. A sociedade não deve se livrar dos debates e deve resistir aos ensaios constantes de massificação. Não podemos evitar que os meios de comunicação exerçam domínios globalizantes. Há notícias que balançam ilusões, criam entusiasmos, mas que são movidas por interesses totalmente fabricados.

As possibilidades de mudanças, na qualidade de vida, sofrem assédios dos planos das grandes corporações. É importante não confundir quantidade com qualidade. As ruas estão repletas de carros, muitos se encantam com a facilidade do crédito e não percebem as armadilhas. Salvar a economia não é, apenas, um jogo matemático. O olhar para o coletivo  consolida políticas que transformam e multiplicam as oportunidades de pensar a história como construção das possibilidades. Se não há divisão, a miséria se estende e agride.

Abandonar os significados do passado, massacrar as tradições, sem uma reflexão sobre o que foi vivido move transtornos e anula  reflexões. Se o presente é o ponto de partida para decifrar os mistérios do tempo, é também fundamental observar os entrelaçamentos convividos. As relações históricas não estão soltas. Nem tudo consegue ser compreendido, mas eleger a novidade como alternativa única é escorregadio. Pensar a construção é se ligar na memória, é dialogar com as lembranças, distinguir as diferenças.

A modernidade inventou seus paradigmas. As exaltações à razão foram feitas com euforia e justificativas ditas científicas. Não houve, no entanto, quebra radical de preconceitos e de explorações que ainda provocam tensões contínuas. A articulação da ciência com a técnica não garante fôlego político para sedimentar rebeldias que, efetivamente, aprofundem proximidades entre as culturas. O mundo das mercadorias ganha espaços, desmonta valores. Quem analisar a situação da China, na atualidade, e assinalar seus contrapontos não perderá as sinuosidades da história. A grana é ambígua, cega, aprisiona, cativa abismos.

A questão é recorrente. Não custa insistir que as permanências são significativas. Elas não estão isoladas, nem anunciam, sempre, conservadorismos. A modernidade cantou, com exagero, os feitos do progresso. O que vivemos, hoje, se relaciona com os conflitos frequentes que ampliam o comércio de armas. Ele invade o cotidiano. A história atravessa longos territórios, possui densas narrativas, porém desprezar o cotidiano pode significar um descolamento fatal. Cada momento sintetiza, mostra que as sociedades precisam de referências e de desfiar  seus pesadelos.

O culto ao imediato é sinal de que a fragilidade da reflexão não se retraiu. A pressa cultiva um lúdico que não deixa ensinamentos. Não é à toa que os brinquedos tecnológicos criam ambiguidades e infantilizam. Há pessoas que  estão presas aos celulares até mesmo quando andam pelas ruas, quando resolvem negócios, quando assistem às aulas. Há patologias que descrevem comportamentos estranhos nas escolhas de cada um. Preferem dialogar com as ferramentas do que firmar afetos e convivências. Tudo isso nos toca. Não só diverte, mas atiça tédios imensos e solidões mesquinhas.

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