O Brasil, o capitalismo, as inquietudes, os movimentos

 

 

A tensão produz violência, a violência produz tensão. É difícil desenhar um fio que resolva as arquiteturas dos impasses. Mas existe uma atmosfera nada quieta que se espalha. Ela não é uniforme. Há quem não se envolva com os desacertos e nem queira mostrar insatisfações. As divergências consolidam-se, pois a sociedade é complexa e convive com múltiplos sentimentos. Não dá para compreendê-la com uma transparência indiscutível.O capitalismo está instalado. Faz muito tempo. Estende-se pelas relações sociais. Não se trata, apenas, de afirmar que ele provoca desigualdades. Ele estimula competições, inventa consumos, estabelece diferenças. Recordando Marx, transforma tudo em mercadoria.

A sociedade internacional não sossega. O tempo não é de euforias, mas de desenganos e desconfianças. Os Estados Unidos continuam enfrentando desafios, a Europa amarga descontroles, as nações mais pobres sofrem com o aprofundamento das misérias. Há conflitos, por motivos variados.Surgem contradições e medos de fracassos. Apesar dos desmantelos, a sociedade segue buscando reorganizar-se. O capitalismo não perdeu sua hegemonia. A riqueza não é de todos, as minorias concentram bens materiais, as utopias mantêm-se abaladas. A velha pergunta incomoda: por que tantos desgovernos, sofrimentos, ordens repressoras, ambições crescentes?

No mundo das mercadorias, valem as trocas. As tradições se desmancham, se aposta na novidade, o utilitarismo se expande. Portanto, o afeto não fica impune. Há dias marcados de celebrações, de amizades, de presentes… O cotidiano não é tão simpático. A concorrência exige coragem para superar as pedras que não saem do meio do caminho. O Brasil comemorou êxitos. Muitos consideraram que a crise não chegava por aqui. Formaram-se os mestres do otimismo. No entanto, ninguém foge das redes internacionais da economia. Os obstáculos ganham espaço, a inflação ameaça, as disputas políticas se acirram, as corrupções não se cansam. As dúvidas balançam quem se achava inatingível.

As carências são muitas. Todos sabem. Os planejamentos não caminham, há entraves burocráticos, autoritarismos seculares. A sociedade dividida convive com lutas. Voltam sonhos, a democracia é rediscutida, as insatisfações acumulam-se. Os protestos assumem lugares nas ruas e nos meio de comunicação. A polícia ataca, os pactos se fragilizam, os ruídos crescem. No mundo do capital, as dissonâncias trazem mobilizações que os dominantes tentam esvaziar. As redes sociais denunciam, articulam, assanham os apáticos. A sofisticação tecnológica inventa arenas futebolísticas, favorece a diversidade da produção, porém as controvérsias não se pagam. Não basta aprimorar a diversão, prometer novos modelos de automóvel, ajudar na construção de um traiçoeiro sistema de créditos.

O capitalismo não se reproduz com generosidades. As perdas se ampliam, pedem soluções, manifestam-se. Não existem projetos acabados. A sociedade não cessa de procurar saídas. Os escorregões acontecem e as sociabilidades convivem com os narcisismos. A falta de clareza, muitas vezes, confunde a direção da travessia. Mas será que a clareza é uma permanência histórica? Com tê-la numa sociedade heterogênea? É visível que há podres poderes. Os pesadelos não se foram. Acompanham os sonhos, conversam com os conformismos, relativizam as certezas. Os movimentos se sucedem como um quebra-cabeça minucioso e cheio de geometrias. Quem conhece seu desenho final?

PS: Só voltarei a publicar textos no dia 26. Pausa para descansar a cabeça e o corpo.

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