As interpretações incessantes do mundo e da vida

Há muitos significados para cada ato e para cada invenção. Não adianta achar que as sínteses facilitam a compreensão. Elas dão pistas frágeis de como andam nossas aventuras e qual a temperatura dos nossos desejos. Não neguemos a complexidade. Ficar ausente  afasta sociabilidades e produz melancolias. O toque da fala ajuda a se jogar no mundo, mesmo que existam  escorregões. Cansa o mito da perfeição que traz crenças de baixa estima e ilusões nada saudáveis. As lacunas estão aí, precisamos estender profecias e não fugir do humor. Sempre faltará alguma energia, porém resta seguir adiante.

Interpretar a vida e o mundo é acrobacia de bom trapezista. Uma metáfora que brinca com as dificuldades. Não dá para administrar indiferenças e formar apatias consolidadas. O medo do erro intimida, tira gosto do risco. Por isso, a exatidão é um espelho amargo. Tudo está se fazendo, com continuidades e transformações. Os tempos se encontram. Aristóteles conversa com Foucault, Bach troca composições com Piazzolla, Descartes desconfia das reflexões de Freud, Nietzsche perturba o sono de Deleuze. Vida e morte se confundem, não se separam. Melhor é cultivar a distinção, sem os gracejos da vaidade acadêmica.

O silêncio e os ruídos não são inimigos. Também possuem significados. Registram travessias da cultura, ânimos e desconfortos da história. O movimento se lança no mundo, não escolhe território, mas não promove, somente, as novidades. Ele busca tradições, tem olhar atento, acende as memórias e pula os abismos. Ao meu ver, criar significa ordenar, classificar e escolher as palavras e os ritmos que servem à obra. Os materiais são de fato extraídos da vida do autor, mas em última análise é uma criatura independente. Está é uma afirmação de um grande e polêmico escritor: Aharon Appelpeld, pouco conhecido pelas nossas bandas.

Outros elegem interpretações ditas realistas. Não valorizam os sonhos, nem a imaginação. Acreditam que contam a história como ela aconteceu, com toda segurança possível. Mostram saudades do positivismo. Nem se lembram de Guimarães Rosa, Mia Couto, Agualusa, Saramago… Fecham as fronteiras, acomodam-se, ironizam os astuciosos. Não seria prudente querer restringir os sentimentos do mundo. Nem todos pensam assim. As inquietudes deixam muitas pessoas atormentadas. Poucos ligam para os deslocamentos, para capacidade de superação. Esvaziam a rebeldia,  exaltam o conformismo. A cultura balança-se entre múltiplas interpretações com pretensões de acumular verdade. E a gangorra se desfez, desapareceu?

O tempo é o desafio. Santo Agostinho já avisou sobre suas poeiras. Não basta numerá-lo. Como senti-lo? Como aproximar um tempo do outro? A convivência nunca repete os mesmos sinais. Há semelhanças, mas cuidemos das flexibilidades e das intenções. Nada de bordar objetividades absolutas. As onipotências moram em cosmos que não nos pertencem. Temos que penetrar no inesperado e enganar as curvas. Aquietar-se com verdades é desmoronar arquiteturas e volta-se, radicalmente, para o vivido. O tempo precisa de sinfonias dissonantes. Quem se protege com o homogêneo, desfia a interioridade e mascara-se de forma constante. A história não necessita, apenas, de pontes e estradas. Os incêndios agitam seu estar no mundo.

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