As intimidades da escrita, as conversas da imaginação

A solidão é tema recorrente. Mesmo no meio das sociabilidades, temos aquela necessidade de procurar o silêncio e cultivar os esconderijos. Nem por isso, o mundo se acaba e os desejos fogem do coração. A solidão é relativa, possui timidez e ritmo, não apaga lembranças e desperta imaginações escondidas. Quem gosta de escrever sabe disso. Juntar palavras, construir diálogos, conversar com as coisas, deslindar relações são movimentos interiores, deslocamentos invisíveis, mas de grande complexidade. É uma forma de repensar as aventuras humanas. Os olhares de dentro iluminam e se entrelaçam com as ousadias que alteram as arquiteturas dos labirintos existenciais.

Há uma reflexão de um livro de Paul Auster que nos toca. Fala de um homem e as escritas: Ele teria continuado a viver nas coisas escritas a seu respeito e teria se transformado aos poucos numa daquelas figuras simbólicas que habitam os subterrâneos da memória coletiva, num representante de tudo quanto é jovem e esperançoso, num emblema das reviravoltas diabólicas da fortuna. A longa citação de Auster reverencia o poder da escrita, como instituinte, e sua capacidade de firmar representações emblemáticas. Quem elege as palavras como ornamentos, não penetrou nos signos profundos da cultura. A invenção do mundo não pode ser desligada da nomeação, da possibilidade de significar, de articular o diferente de cada emoção.

Quem escreve está no meio do mundo. Não interessa o espaço físico. Posso fazer um poema no aeroporto, esperando um voo atrasado e desenhar o drama de um texto debaixo de um lençol, na noite inquieta. O importante é a conversa que estabeleço com as palavras. Dicionário fechado, pois a escrita requer que se  desafie a mesmice. Na arte de escrever, há o distrair-se, brincandeiras com as vacilações dos mitos, questionamentos sobre a coragem do governantes. Quem escreve, sem as travas da burocracia, se surpreende, pois observa que existem reviravoltas nas suas expectativas. A escrita tem o sinal de recomeço ou de uma desistência inesperada. A imaginação não se desfaz do inconsciente, não visualiza lugares determinados, porém se sacode onde há pouco luz e muitas sombras.O mundo das invenções é também o mundo das ilusões.

 Auster: O profeta. Como em falso: penetrar no futuro por meio da fala, não por conhecimento mas por intuição. O profeta autêntico sabe. O falso profeta adivinha. Outro mergulho, outras desconfianças, outras incertezas. Quem sabe por intuição? Quem se agrega ao futuro e joga de lado os fantasmas do passado? Tudo acontece por acidente, fabricação do acaso, onisciência dos deuses ou manipulação dos infortúnios? A resposta nunca é, segundo alguns, definitivamente, satisfatória. A falta expressa o humano e seus pactos com o que projeta. Quem é o profeta autêntico? Aquele que contorna as regras da gramática dominante e engana a linguagem? Ou aquele que não despreza o presente e se mistura com o instante? Armar as palavras como um grande jogo de Lego não anuncia o futuro ou consolida o vivido? Talvez, a solidão que afaga a escrita seja mais íntima. Ela rascunha as pontes que vinculam o que se diz ao que se faz.

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18 Comments »

 
  • Vítor Jó disse:

    Quem disse que a “distimia” não pode ser bela, que não tem beleza e seus lucros?
    Bela reflexão. Um dos melhores textos que li sobre o tema “solidão”.

  • Julio Cesar Silva disse:

    As palavras. Da mesma forma que nos excitam com suas explicações acerca do mundo, nos confundem quando não entendemos o que se quer dizer. Toda a palavra é conceito. Criada com este fim, não podemos perceber o mundo sem conceitualizações; os modelos podem mudar, as palavras, nunca. Signos, são apenas signos, emaranhados que formam uma lógica, atribuem ums entido que nossos cérebros reconhecem e aceitam. neste jogo bizarro, elas podem ser cálidas e terríveis, doces e amargas. Será que existe algum sentimento que não possue palavra para descrevê-lo? Não podemos estabelecer uma verdade com as palavras… a verdade já é uma palavra. Ela tornou-se a priori… nós a criamos.

  • Vítor Jó disse:

    (enviei incompleto)

    Quem disse que a “distimia” não pode ser bela, que não tem beleza e seus lucros?
    Bela reflexão. Uma das melhores explanações que li sobre o tema “solidão”.

    Vi em algum lugar que a escrita é a pintura da alma – acho que foi Voltaire quem disse. Com as palavras julgamos e transpomos o subjetivo do eu para o concreto: o eu torna-se palpável; conseguimos transmitir um pouco de nós para fora. A escrita é terapêutica! A solidão, a propósito, talvez seja uma das maiores inspirações dos prosadores, penso eu. E o que há de belo na escrita? É aquilo que se tenta dizer, mas não se diz por completo; aquilo que carece de sensibilidade para entender – sensibilidade essa que aflora com certas “solidões”. A beleza da escrita é o não escrito. O que fica no subjetivo. As palavras fazem pontes incompletas: em determinado ponto é necessário voar… E voar é bom.

  • Gleidson Lins disse:

    Escrever é um exercício para a mente e para a alma. O que escrevemos permanece, interpreta-se, expõe-nos. Quem escreve nunca está sozinho. Melhor, escolhe a sua companhia juntando palavras. Genial aquele que um dia rabiscou traços significativos para transmitir uma mensagem.

    Abs,
    Gleidson Lins

  • Gleidson

    A escrita dá fôlego à cultura e articula as diferenças. É ânimo para as invenções de vida.
    abs
    antonio paulo

  • Vítor

    Nada como o voo da imaginação, assim vamos contruindo mundos inesperados.
    abs
    antonio paulo

  • Júlio

    As palavras ajudam a compreender as coisas do mundo. São alimentos básicos de construção da cultura.
    abs
    antonio paulo

  • Monique disse:

    A solidão no momento da escrita é bela…
    As linhas que vão sendo bordadas com letras dão forma,imortalizam e expõem o sinlencioso diálogo interno.
    Texto belíssimo….e a foto inicial também.
    Abs!

  • Juany Nunes disse:

    Concordo com Julio
    as palavras por certas vezes me dá medo, por que rotula,limita.
    quando escrevemos com a intensão de guardar memórias,desabafar.. sem a intenção prévia de que alguém um dia irá ler, não há privações, por que você vai escrever pelo simples fato e se um dia vier a ler novamente,entenderá tudo, até recordará. Quando há a intenção da própria comunicação, ou seja, quando você deseja que alguém leia, talvez ela não possa entender o que você quis dizer, justamente por essa limitação que a palavra impõe, há sentimentos que não podemos descrever, ou o próprio significado que as coisas passam a ter.Há coisas que pensamos poder escrever ou as vezes até falar, mas temos medo. O exercício da escrita é o encontro de você com você mesmo e esta oportunidade é ao mesmo tempo, descoberta e inquietude.

  • ladjane disse:

    É Um artista quem desenvolve a arte de escrever. Escrever é revestir as ideias com palavras , representá-las graficamente para um determinado público leitor.
    Adoro ver as palavras bem colocadas dentro das frases de autores textuais, na tentativa não só de embelezar o texto, como um jardim florido, mas de torná-lo claro, compreensível.
    Lembrei-me no momento em que li o texto do professor, de um poeta brasileiro chamado João Cabral de Melo Neto, quando ele escreveu um poema chamado “catar feijão”.
    O autor, provavelmente, em momentos de solidão, quis usar esse exemplo tão simples para fazer uma analogia com o uso das palavras.No poema, os grãos do feijão são selecionados antes de serem jogados na panela, assim também se faz com as palavras para expressar ideias e pensamentos.

  • wellinson vaz disse:

    As palavras tem um forte poder sobre nós ,elas são as ferramentas com as quais vamos retirando a terra viva e pulsante que é nosso ser .Elas transmutam-se em sentimentos e ações.
    Muitos tentam através delas dissecar nossos anseios,poucos conseguem. Dominar as palavras e a escrita é ter o poder de personificar ações e sentimentos ,deixá-los palpáveis ou apenas vislumbráveis.
    Vejamos o exemplo de Gabriel Gárcia Marquez ,que como poucos soube penetrar tão profundamente em um sentimento que acompanha inevitavelmente a todos nós,a solidão.Descortinar suas palavras é mergulhar nas profundezas de nosso próprio eu e escutar o ressoar de coisas que as vezes tentamos enterrar.
    Escrever também satisfaz um desejo humano de querer representar e significar .

  • Fábio Alves disse:

    A solidão é algo que todos nós buscamos em algum momento da vida. Que seja numa determinada hora do dia ou num determinado dia da semana. Nossa rotina desgastante e cheia de cobranças/obrigações faz-nos sentir necessidade de um momento a sós. A escrita é uma boa forma, um bom caminho de relaxar.
    Escrever para si mesmo é uma boa maneira de extravasar, de realmente’colocar pra fora’ os sentimentos e desejos reprimidos. Quando você escreve para si mesmo, é quando você escreve o que realmente quer expressar. Você não modifica o texto de acordo com o público-alvo, você é o público-alvo. E, depois de algum tempo, ler as coisas que você escreveu é uma atividade indescritível. Te faz rebuscar memórias que ficam ocultas em nossas mentes, pois nossa memória é seletiva. Há fatos de que jamais lembraríamos sem o auxílio um texto, um aroma, uma canção.

  • Fábio

    A vida é o encontro com sentimentos. Eles movem lembranças e a escrita é um ponto de registro importante. Podemos, então, dialogar com o que foi vivido.
    abs
    antonio paulo

  • Ricardo Wanderley disse:

    As vezes a solidão é algo bom, ao ponto de nos fazer refletir sobre algo que aconteceu e que no momento ocorrido, seu pensamento era totalmente diferente. Na solidão podemos nos colocar em qualquer lugar e instante. Podemos descansar da opinião alheia, dos sentimentos alheios e até dos desejos alheios. Podemos escrever o mundo com nossos olhos, com nossa perfeição imaginária. As vezes a solidão nos desperta para algo que nunca imaginamos. Creio que os melhores autores eram e são mestres em ficar solitários.

  • Ricardo

    Se a solidão traz reflexão e nos ajuda a criar autonomia, estamos numa boa trilha. O importante é não se isolar ou esconder dos conflitos. O social é básico para o fluir da vida.
    abs
    antonio paulo

  • João Paulo disse:

    O é interessante é que nunca se diz aquilo da forma que pretendemos/pretendíamos dizer; não há perfeição. Exemplo? Procure descrever o céu. Azul, seja claro ou escuro, ou até mesmo vermelho, ou rosa, dependendo da hora, com nuvens brancas – em alguns lugares, claro. Depois observamos que esse mesmo céu é divido em troposfera, estratosfera e, por conseguinte, camadas sobre camadas de palavras sobre palavras sobre palavras… Então se chega ao universo! Planetas, constelações, via-láctea… As palavras oscilam entre a subjetividade e a objetividade, e no fim tudo que se espera é um posicionamento ético sobre o assunto explanado: caso contrário, caímos num ciclo infernal no mundo palavras. Um poema não suscita exatamente as mesmas emoções que foram utilizadas para fazê-lo, não exatamente.

  • João

    Sempre há falta. Falamos de perfeição, mas não chegamos lá. É uma fantasia.
    abs
    antonio paulo

  • Wellinson

    As palavras nos ajudam a ler o mundo e representá-lo. É fundamental pensar que a cultura caminha no diálogo com as palavras.
    abs
    antonio paulo

 

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