Os intrigantes movimentos das máscaras sociais

 

O tempo se vai, mas não apaga tudo. Sobram tantas lembranças coletivas que assustam os mais indiferentes. A sociedade não consegue, muitas vezes, assumir as permanências, nem definir seus pertencimentos. Pede novidades, mostra cansaço e descuido, desiste de sonhos e acomoda-se em redes nada esplêndidas. A trajetória da história confunde, não foge das curvas. Os esclarecimentos são importantes, contudo os vestígios não ajudam a decifrar todos os impasses. Comungamos perplexidades, viajamos por mares nunca antes navegados. Não nos é oferecido o dom de prever e aprisionar o futuro.

As mudanças podem acenar com valores desconhecidos e rostos incomuns. A política é jogo de regras quase infinitas, não escapa dos interesses mais medonhos, nem quer anular os conflitos. Balança-se nos disfarces. Será que as trilhas de fuga garante o fim das violências? A solidão fortalecerá o desamparo, formando escrituras de esquecimentos de solidariedades fundamentais? Admitir a morte da sociabilidade é decretar a ruína radical da história. Não há magia que descubra fórmulas definitivas para aquietar ansiedades. O equilíbrio é frágil e talvez nem exista. Necessita de teorias para ampará-lo com convencimentos tardios.

Manifestações se sucedem. Elas estão em toda parte. Celebram inquietações inusitadas, visualizações do inacabado que seduzem. É impossível avaliar sua profundidade, porém insatisfações tomam conta do mundo, não só das ruas, mas também dos parlamentos desfigurados. Os cenários dissonantes tornaram-se cotidianos, sem esconder fingimentos. Transtornam. As dominações centrais recorrem às estratégias de intimidação nada democráticas. Usam, também, máscaras e justificam a necessidade de pacificar, trazendo práticas agressivas para o movimento da vida urbana. O conflito se expande, com anônimos, fantasmas, fantasias, desmontagens, utopias redefinidas.

A luta não é apenas física. Atinge e corteja a reformulação de princípios. Quem concentra riquezas, se aflige com a perda de poder, faz pressões e busca cooptar. As acusações não cessam O pessimismo tem espaço crescente. As máscaras escondem e revelam que as transparências transitam por territórios pantanosos. Há agonias nos desmantelos e malabarismo sutis e constantes nas relações sociais. A cultura se mistura com a barbárie. Engana-se quem julga haver fronteiras e sentenças inexpugnáveis. Dar nome às insatisfações é um desafio incomum. A história se veste de mistérios, se perturba com a possibilidade de não os significar. Há culpas e responsabilidades, maiorias fragmentadas e ninhos de informações com teias que se renovam.

Em maio de 1968, dizia-se que era proibido proibir. Como, todavia, imaginar uma sociedade sem regras e um sonho de paraíso que teima em parecer estranho? Somos testemunhos da vida, não esgotamos os contrapontos que nos assanham. As máscaras não precisam de desenhos, podem ser a fotografia de sombras de figuras inesperadas. As identidades se ampliam, provocam escândalos e evitam fixar rotas. Estamos num exílio que traça  metamorfoses. Não sabemos como acompanhá-lo, por isso esquecemos que os outros compõem sustos e aproximações. O que seria da história se tudo estivesse determinado num livro sem indagações imprecisas?

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