As invenções e as astúcias na construção da cultura

Não é difícil observar as coisas repetidas. Os disfarces não conseguem enganar por muito tempo. Nem sempre a repetição é um golpe no desejo de reformular o mundo. Há muita diversidade. Ela confunde certas expectativas. Alguns pensam estar mergulhados em novas formas e dizeres, mas retomam o passado com algumas cores diferentes. A luta pela afirmação de concepções é grande. Ela possui dimensão política. As pedagogias têm utilidades acentuadas, porém ganham espaço, também, nas teorizações. A estética não é única. Basta caminhar pelos modernismos ou mesmo ficar diante das telinhas para verificar que as linhas são sinuosas. O consenso é quase impossível.

Numa sociedade de bilhões de pessoas, com meios de comunicação poderosos, as verdades desfilam com uma velocidade incrível. O ontem envelhece em segundos. Estamos, contudo, na geografia do capitalismo. As fronteiras podem mudar de tamanho para contemplar as estratégias da minoria. Os tempos não estão organizados, com transparência indiscutível. Será que é possível admitir-se clareza, onde moram tantas divergências e se disputam benefícios e confortos? No entanto, temos que escolher. Viver no vazio, ouvindo conselhos cotidianos, traz uma sensação de desamparo. Gostamos de trocar sentimentos e incomodar-se com os outros. A calmaria não se consolida, mas se apresenta como desculpa. O vento vai e vem.

Não é concebível, portanto, uma sociedade bem comportada, rezando orações para deuses comuns. É um problema para quem governa. Muita gente atrás de referências, desenhando valores, querendo sossego e qualidade de vida. Por isso, não há como esconder a inquietude. As modas passam deixando vestígios. A terra já foi o centro do universo. Já disseram que as mulheres não tinham almas, que existiam raças inferiores, que estamos condenados aos suplícios dos infernos. Tudo isso ainda atrai alguns. Daí, os dramas que se instalam e desafiam qualquer ideia de progresso.

Rascunhamos enredos envolventes. Vacilamos, pois  não anulamos incertrezas de maneira radical. Os artistas criam e sofrem pressões de épocas e críticos. Quem conhece as histórias de Piazzolla, Picasso, Baudelaire, Scorsese, e tanto outros, sabe que a homogeneidade é uma grande fantasia. A censura, a repressão, o totalitarismo não apagam o poder da invenção. Buscam oprimir e e enquadrar, mas os espaços do sonho e da imaginação voam e derrubam donos de paradigmas. O ser humano convive com a resistência  de dogmas. A cultura precisa das astúcias para reinventar costumes e quebrar monotonias. As aventuras de Ulisses nos mostram as peripécias da sagacidade do mito.

Apesar das permanências, existem muitos mares turbulentos navegados. É uma metáfora sedutora? Talvez, pois as palavras não se aquietam com um único sentido. As perguntas frequentes nos lembram que a cultura não sobrevive festejando, apenas, o que está consolidado. Se tudo fica no ritmo de uma sinfonia fixa sem possibilidade de dissonâncias, a cultura vira um espelho que acolhe imagens fragmentadas, sem impactos, desconcertadas. Não dá para cogitar uma identidade isolada, desconectada das invenções que circulam. A pressa traz ambiguidades. Haveria algum tempo sem misturas, com princípios inquestionáveis, sem quaisquer sofismas? Quem se espreguiça, fugindo das dúvidas, aprofunda a apatia.

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2 Comments »

 
  • Dayse Luna disse:

    Convivemos com a “geração zapping”, com as “culturas extremas” vinculadas às experiências das juventudes dilatadas, com contradiscursos, liminaridades, espetacularizações, ritos e simbolismos que narram dramas, muitas vezes, deslocados ou relocados. As astúcias são imprescindíveis na busca pela compreensão das novas e/ ou reconfiguradas maneiras de ser e estar na cultura dita pós-moderna. As incertezas são forças motrizes, as dúvidas incitam e nos mobilizam.
    Apreciei a densidade do texto, multifacetado e convidativo. Bela reflexão!

  • Dayse

    Há muitas misturas na vida contemporânea. Isso confunde, mas temos que seguir adiante. Grato pela leitura e estímulo.
    abs
    antonio paulo

 

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