As invenções, a cultura, o tempo, Steve, Beatles

A recente morte de Steve Jobs trouxe reflexões importantes. Receberam destaques merecidos suas invenções  e criatividades. Jobs dedicou-se a abrir, com ousadia, espaços na técnica contemporânea. Não ficou paralisado nas banalizações, nem entusiasmado com o consumo das multidões. Foi além. Não fugiu dos desafios. Firmou um exemplo, compreendeu que a rapidez pode ser aliada à inteligência. Ofereceu produtos atraentes, mas que transformam modos de pensar e estimulam convivências. As ambivalências não podem ser, porém, desprezadas. Nem todos percebem as astúcias e a capacidade de transcender. Muitos se localizam no valor comercial e na moda. Individualizam as conquistas e não observam as possibilidades de aumentar solidariedades, aproximando pessoas.

A história não se move sem os contrastes. Não só o momento de exaltação da cibernética e do reino dos computadores ágeis que assinala a existência das contradições. Não há como compreender a cultura como terreno de quietudes e verdades definitivas. Jobs marcou, pelo seu desejo de inquietar. Poetizou uma atividade que poderia ser sem atração e mecânica. O saber foi construído com cartografias surpreendentes. O óbvio, às vezes, aparece, atrai, consolida opções, porém não transgride. É escravo da mesmice e da reprodução. Não provoca deslocamentos. É irmão gêmeo do Big Brother.

Os feitos de Jobs recordam outros tempos. Felizmente, a ousadia não reside numa casa fechada e inviolável. Quem pode esquecer-se das teorias de Copérnico, Giordano Bruno, Galileu? Reviraram as concepções da sua época, derrubaram tradições, incomodaram  instituições poderosas. A terra deixa de ser o centro do universo, a astronomia e  a matemática ganham lugares privilegiados na compreensão da natureza e da cultura. No Renascimento, há exemplos significativos de como o diálogo entre passado e presente pode abalar verdades. Da Vinci, Brunelleschi, Miguel Ângelo, Dürer, Bosch, e tantos outros, (res)significaram a estética, revisitaram mitos e expandiram traços revolucionários. Maquiavel releu a política e ,até hoje, é reconhecido nas escolas do poder.

Seria impossível nomear aqueles que, inconformados, partiram para anular teses conservadoras. Tudo isso possuiu uma dimensão. Grupos sociais prosseguem beneficiados com certos monopólios. O saber nunca foi neutro, por isso é importante não desligá-lo de esquemas de poder. A burguesia soube e sabe conduzi-los para fortalecer suas ambições. Os Beatles agitaram os 1960, acumularam fortunas, fizeram declarações malditas para os bem-comportados. Havia a rebeldia, cercada pelas estratégias da sociedade de consumo. Paul mantém a dinastia, com shows recebidos com delírios e nostalgia. Exercite sua curiosidade e construa um lego com as ideias de Paul, com as identidades de cada tempo vivido.

Cabe ao historiador não desprezar as experiências, para não adormecer nas seduções do discurso dominante. A memória sacode esquecimentos, nos faz desconfiar das hierarquias. Por que estabelecer comparações que engessam as invenções e apagam seus voos incertos? As invenções respondem perguntas do seu tempo, mas também acontecem rompendo com a linearidade. Os renascentistas tinham fortes conversas com os gregos e os romanos. Isolar as conquistas é assumir o desconhecimento do passado e consagrar os exageros do presentismo. Jobs gostava dos Beatles.Lutero leu santo Agostinho. O tempo não é uma invenção humana?

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1 Comment »

 
  • Emanoel Cunha disse:

    A deposição de uma cultura transcende a partir momento que suas verdades são questionadas e reelaboradas para a renovação de seus próprios valores e questionamentos. Antigas percepções de uma cultura precedente passam a atribuir significados ao seu tempo no momento que suas ideologias são quebrantadas, pois a mesma abre novos diálogos e conhecimentos do homem com suas múltiplas manifestações de vida, nisso ressignificando suas revelações.

    Bebemos do passado os nossos conhecimentos, aliás, foi com o tempo (invenção humana) que com suas andanças e transgressões, nos possibilitou e possibilita o homem a adentrar nas caracterizações que hoje regem e são atreladas a nossa forma de vida e inteligência na terra. Somos fagocitadores de uma gama de culturas, todo seu abarcamento foi surgido com a ausência de perguntas das quais ousamos a teorizar e por em prática os seus questionamentos.

    A astúcia da humanidade está naquilo que ela proporciona ao desenvolvimento da sua capacidade de inovar e ousar no seu intelecto, essas muitas vezes, destituídas de suas raízes e contribuições tanto positivas como negativas. Foi com as antigas civilizações que passamos a aperfeiçoar nossa cultura, sejam com as dos: Tartessos, Sumerianos, Chineses, Hindus, Gregos, Romanos, Incas, Maias, Astecas, dentre os outros povos que alimentamos e acrescentamos em nossa civilização novos conceitos e aprendizados que hoje estão impregnados em todo campo social da humanidade. Viva a estes engenheiros história, que sempre em processo de transformação buscou quebrar antigos padrões e construir novas erudições para nosso tempo.

    Abraços

 

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