As leituras da vida e o mundo desencontrado

 

As transformações dos últimos tempos trouxeram a necessidade de rever muitas leituras feitas sobre as relações sociais. É um tempo marcado por pesquisas tecnológicas que tomam conta, também, das solicitações dos mercados internacionais. É difícil manter culturas locais, sem sofrer interferências da globalização. Ela tem a força dos meios de comunicação e a capacidade de mobilização do capital. As empresas produzem onde a mais-valia seja mais promissora. O nacional encontra-se combalido e pedindo socorro. Há resistências e alternativas, mas o poder de mando se articula com objetividade e planejamento sofisticado.

Nem tudo está dominado. Não estamos condenados a uma repetição enfadonha de cada detalhe. A história não se desfaz do inesperado. Milhões de pessoas nascem todo dia e não podemos prever como as relações humanas se reconstroem. Não existem domínios absolutos. Os totalitarismos massacraram populações, porém enfrentaram desmanches e oposições. A política ganha um pragmatismo que responde às demandas da contemporaneidade. Isso ameaça sonhos de cidadania e encobre desigualdades. Não custa insistir que ler o mundo, consagrando a homogeneidade, é fugir dos tantos contrapontos que sobrevivem e incomodam o discurso hegemônico.

Os transtornos e os desconfortos não são aceitos passivamente. A sociedade reage, mesmo que a época das utopias se distancie. Ela organiza-se e possui, também, seus pragmatismos. Não é a questão da ética que é lembrada, nem as teorias ilumistas. As cores mudaram. Cuba passa por refazeres lentos. A China move-se em busca de acumulação de  riquezas. Portanto, os desencontros com os modelos projetados são frequentes. A sociedade exige assistência e presença dos governos nos desastres ecológicos. Não eliminou a administração pública. Quer sua eficiência, pois se  falam de consumos e de paraísos imobiliários nas TVs, enquanto as cidades se dissolvem com temporais e tumultos no trânsito.Vale reclamar da eficiência.

O concreto assume seu lugar, sem muitas metafísicas. Os olhares são outros e as ambições acompanham as invenções de novidades que sacodem as agitações do mercado. As ruas das cidades deveriam proporcionar seguranças e bons passeios. Para que, então, tantas propagandas de automóveis? Cadê os cartões de crédito que forjam milagres? O debate segue trilhas de economistas entusiasmados com surtos de desenvolvimento. Descuidam-se da qualidade de vida, da situação das reservas naturais e das condições de trabalho. Por isso, os políticos encantam-se com os cargos e montam estratégias cheias de pactos estranhos para quem acredita na coerência. As caricaturas não provocam risos, mas perplexidades inúteis.

Os desconectados,com o mundo da velocidade, ficam amargurados. Debruçam-se sobre o passado, com certa nostalgia. A memória balança as emoções e redefinem sentimentos. O vivido não está apagado pelo fogo do presente. A mistura, no entanto, é confusa. Aparecem comportamentos que recordam décadas anteriores. O mundo atual possui mecanismos de mascaramentos poderosos. O novo e o velho dançam valsas, em cenários de ficção científica. Somos instigados a compreender acontecimentos que não se sintonizam mais com o dualismo. Os valores tem seus espelhos modernizadores. Não se lamentam se o cinismo atravessa figuras e corações. Os artistas e escritores, das vanguardas do século XX, já anunciavam linguagens diferentes. Kafka que o diga.

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8 Comments »

 
  • Geovanni Cabral disse:

    Bom dia amigo, e uma páscoa harmoniosa. Vivemos nos desencontros, mergulhados nas angústias do que deveria ter sido feito. Andamos nebriados por uma névoa que dificultam nossa visão. Somo levados aos espetáculos das propagandas, do consumo e da politica. O descaso é a a palavra atual. A cada gestor público, espera-se mudanças, consertos, alívio para tantas dores. Sonhamos com outros cenários. Contudo, o filme permanece o mesmo. As palavras ditas, às mais comoventes, as imagens as mais belas. Estamos cansados de tantas mentiras. Não estamos nas Aveturas de Pinóquio, nem nas talhas de Geppeto, mas em uma realidade outra. Precisamos de respeito, de um pouco de atenção. A cidade que queremos encontra-se no papel, as praças e os encontros estão na poesia. E perguntamos, o que fazer? Como lidar com ruas alagadas, com a violência que aniquila, com as vidas dilaceradas? Por que tantos desencontros, se seria tão mais simples o afeto? Que sistema econômico monstruoso é esse que atravesa séculos, sem freios e veloz como um lobo diante se sua caça? Sigamos pois nos labirintos, nos dibles de cada aurora, para sonharmos que ainda é possivel.

  • Geovanni
    Boa Páscoa e é sempre alimentar os sonhos. A vida exige ousadia e não, inércia.
    abs
    antonio paulo

  • Gleidson Lins disse:

    As transfomações ocorridas nos últimos tempos realmente devem assustar aqueles que não estão conectados com a velocidade em que elas ocorrem. Eu, que já passo dos 35 anos, cresci assistindo ao antagonismo entre o ocidente capitalista e o leste europeu comunista. Como um rastro de pólvora, o socialismo pragmético do leste europeu foi caindo país a país e, de repente, o antagonismo ideológico se desfez; e mais: alguns desses países, outrora sociaistas sob o jugo pesado soviético, são agora membros da União Europeia, como Polônia, os outrora unidos República Tcheca e Eslováquia, Hungria, Romênia, Bulgária, Eslovênia e os bálticos Estônia, Letônia e Lituânia. Todos esses países agora também são membros da OTAN, assim como a Croácia e a Albânia. Isso tudo em meros 20 anos.
    Esse é só um exemplo, dentre vários. As ciências, auxiliadas pelos avanços tecnológicos cada vez mais rápidos, constroem novas verdades e invertem ideias e teorias com novas descobertas. O que ocorre em qualquer lugar em instantes a internet leva a qualquer lugar do mundo. Há pouco mais de um século, quando a o Brasil se tornou repubicano, a notícia levou mais de dois meses par atingir o norte do Mato Grosso e a Amazônia, levando o novo governo republicano a iniciar a instalação de linhas telegráficas para aquelas bandas, com Rondon sendo de extrema importância. Isso hoje em dia é impensável. Usando o clichê, o mundo hoje é uma aldeia!

  • Gleidson

    O fôlego da observação da vida permitiu uma boa análise. O mundo se refaz. E vamos segundo suas andanças.
    abs
    antonio paulo

  • João Paulo disse:

    É por isso que muitas vezes eu corro, literalmente, dos “JN” da vida. Isso causa um sentimento de impotência terrível. Os avanços tecnológicos que tentam apreender a realidade social e as transformações climáticas, simplesmente não o conseguem.
    Isto sim é uma utopia: tentar colocar-se sobre a complexidade do real, na esperança de visualizá-lo como um labirinto, no qual se pode evitar os caminhos esquivos e as suas armadilhas. Um controle total. Mas o problema é que os caminhos que compõem o labirinto não são estáveis, mas sim mutáveis.
    Há mídia promove uma confluência confusa dos acontecimentos, transformando-os em intangíveis. Dividi-se os acontecimentos em tópicos com intervalos precisos do “plim plim”: entre bundas, álcool, e sandálias, ou mesmo o absurdo carro que custa, somente, 35 mil reais; a lacuna aumenta, e mais pessoas caem nela.

  • João

    Boas observações. Há muito jogo na mídia e é preciso saber os seus caminhos.
    abs
    antonio paulo

  • João

    Um boa crítica nos salva de muitos enganos.
    abs
    antonio paulo

  • João

    A manipulação faz parte da disputa de poder. Quem tem ética não cai nas armadilhas. A confusão é proposital.
    abs
    antonio paulo

 

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