As leituras de Mia Couto e seus encantamentos

Costumo dizer que a solidão, às vezes, trava a vida. Não significa que devemos curtir sempre os grupos e e as festas animadas. A solidão traz reflexão e nos ajuda a enfrentar muitas armadilhas. Somos animais sociais, não tenho dúvidas. Por isso que estamos conversando com o mundo, mesmo quando escondidos e melancólicos. Falo, aqui, da solidão que intimida e despreza qualquer ousadia. Os recolhimentos são necessários, pois o inexplicável mora no mundo e nos impacienta. Portanto, não há como abandonar a instabilidade. O importante é cuidar dos excessos. O absoluto é uma fantasia traiçoeira.

Os diálogos com os escritores são momentos que exigem imaginação e abertura. Quando se escreve há uma invenção constante e o desenhar de outras geometrias. Nem todos conseguem fazer da escrita um lugar de encantamento. Há uma massificação da linguagem que marca o contemporâneo. Com poucas palavras querem enganar, vender aventuras, transformar. Uma mesquinhez que vulgariza os sonhos.É a multiplicação das mercadorias, o esquecimento de Prometeu, a inércia provocada por facilidades descartáveis.

A literatura não está fora desses ataques. O processo de produção capitalista é sofisticado, não cessa de rever conceitos e azeitar sua dominação. O sucesso não indica qualidade. Não é à toa que nos confundimos. A imprensa divulga e elege seus escolhidos. Uma máquina que atrai, move mercados, ornamenta vitrines. Nem todos visitam esses labirintos. Há quem mantenha a crítica, não mergulhes em sociabilidades materializadas, onde não cabe a solidão que refaz caminhos e suspeitas das iscas tecnológicas.

Nas minhas leituras, busco encontros e o inesperado. Gosto de Mia Couto, porque sinto sua companhia. O escritor articula sentimentos, diversifica, viaja. Sua forma de conectar os mundo  é de uma singularidade permanente. Mia não perde o fôlego, nem o mistério. Sua prosa é poética, fundante, envolvida com a profundidade e desconfiada com o ponto final. Cada afirmação solta os ruídos ambíguos e inacabados do viver. Quem pensar que existem fronteiras fixas, não capta até onde o escrito reverencia o inusitado.

O mundo é um só ou tudo se parte sem perder as intimidades? No seu livro A Confissão da Leoa, a navegação é intensa. Como distinguir os amores, os sofrimentos, as travessuras, a coragem e o medo? A escrita de Mia faz voltas, não nega as curvas. Não desfaça que o humano é complexo, porém não se firma no caminho da racionalidade. É a magia que nos veste. Anulá-la é riscar a possibilidade e consagrar a mesmice. Quem escreve e conversa com o mundo não teme a solidariedade estética que fortalece a cultura.

A verdade, muitas vezes, não tem aquela objetividade iluminista. Ela vacila. A solidão trava a vida quando a torna lugar comum de anúncios cotidianos. As rupturas se dão quando quebramos as perseguições que nos fazem senhores de ciências majestosas. Mia mostra as fraquezas, brinca com as semelhanças, alarga o olhar. O encantamento não vem , apenas, com o paraíso despido de pecados e ousadias. Há instantes que o configura com rapidez inusitada. Sua palavra toca, como um poema que tem o manto de memórias astuciosas.

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2 Comments »

 
  • Christiane Nogueira disse:

    Articular sentimentos, diversificar, é para poucos. Coragem e ousadia são atributos de poucos escritores. É mais fácil se render ao fascínio midiástico e tecnológico – que tudo camufla, tudo engana, mas que traz reconhecimento e fama -, que desvelar a essencia humana, reconhecendo-se nela e a fazendo conhecer, alargando olhares. A esse tipo de escrita, desprovida de medos e de pré-conceitos, rendo-me sempre, todos os dias.

  • Christiane

    A leitura de Mia é sempre uma emoção. Mantém uma magia que sempre seduz e traz aprendizagens. abs
    antonio

 

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